Morre Laio, o anjo travesso

Publicado 20/06/2011 por basinho
Categorias: Arte, Informação, Música

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O Estado de Rondônia está de luto. A música popular karipuna perdeu uma de suas grandes vozes. Morreu ontem, em São Paulo, o cantor, compositor e folclorista Francisco Lázaro, o Laio. Deixem voar livres as asas azuis e vermelhas – disse ele em uma de suas letras, chamando atenção do homem para o direito que as araras têm de voar livremente no espaço aéreo da amazônia ocidental. Laio era um anjo, um Anjo da Madrugada.

Ao lado de Tatá, Monteiro, Waldemar Nazareno e Roberto Matias, fundou o mais famoso grupo de seresta da região norte, no tempo em que integravam o Movimento da Juventude Católica do bairro Nossa Senhora das Graças, em Porto Velho. O falecido artista, irmão do baixista Sérgio Santos, era um ribeirinho legítimo: nasceu em Calama, à margem do rio Madeira, cercado de igarapés e muitas estórias da floresta e brincadeiras de corre-corre macuchila e bela condessa. Intuitivo, já trouxe consigo o gosto pelo canto, pela música e pelo boi-bumbá, folguedo junino onde tinha a patente de Amo, comandando os vaqueiros do garboso e valente Diamante Negro, impondo respeito e admiração aos contrários.

Um de seus grandes amores foi a cantora Nêga, também já falecida, com quem chegou a ter uma filha e para quem Laio compôs Aceiro, dizendo ele desse amor com a doce intérprete: és, coração, como um aceiro, se da mata és o início, do roçado és o fim. Apaixonado pela música, participou, na década de 80, no espaço cultural do Sesc/RO, do Movimento Musical Grito de Cantadores e dos vários festivais de música da capital. Junto com o poeta Binho (Rubens Vaz Cavalcante) e Ernesto Melo e tantos outros, participou do CD que registrou algumas peças dos artistas que se apresentaram na Quinta Cultural do BASA. O CD Amazônia em Canto, uma coletânea gravada em 1996, em Belo Horizonte/MG com o apoio da prefeitura municipal de Porto Velho, por Bado, Binho, Nêga e Augusto Silveira, foi outra produção antológica que teve a participação de Laio.

Ele era, antes de mais nada, um autêntico cantador, um ribeirinho que remou de Calama até o Porto das Esperanças e aqui se fez legítimo menestrel à moda antiga. Com a viola em punho não tinha medo de cara feia nem dos desafios que a vida lhe impunha. Como uma patativa do baixo Madeira, entoou nas noites enluaradas o melhor do cancioneiro latino-americano, usando com os seus parceiros a alcunha de “Anjos da Madrugada” para tirar uma onda com a cara dos paulistas, que inventaram os “Demônios da Garoa”. O corpo a morte leva/a voz some na brisa/a dor sobe pras trevas/o nome a alma imortaliza – disse João Nogueira. O cantar do cantador, no entanto, não morre, fica latejando no espírito da gente como uma fonte jorrando perenemente saudade e emoção, lembranças e o testemunho de que a voz de Laio permanece viva no coração do povo. Ele cantou por amor e por amor será eternamente lembrado por quem ouviu seu canto livre como as penas azuis e vermelhas planando no firmamento da terra Guaporé. Polifacético, interpretou Geraldo Vandré, cantou toada de boi e MPB. Laio participou da pajelança das várias tribos culturais, mas não se enquadrou definitivamente em nenhuma delas. Era um anjo travesso cantando bolero e brincando de boi-bumbá!

Ah! Essas bailarinas!

Publicado 27/04/2011 por basinho
Categorias: Arte, Crônica, Cultura

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por Antônio Serpa do Amaral Filho

Para que o homem não se sinta só e as ame secreta e profundamente

No palco, são pássaros celestiais, anjos enfeitiçados, místicas invocando a lua cheia.
Seus corpos leves como plumas se movem com sensualidade e graça, para o deleite da platéia.
Seus olhos metem medo aos simples mortais que as assistem, pois exalam ardor e paixão, temor e benevolência, domínio e desafio, a um só tempo.
Seus espíritos iluminados flutuam libertos, como almas do além pregando a paz e a inocência pecaminosa.
Ah! Essas bailarinas!
No palco, levam todos à hipnose coletiva, e em cada ser que as assistem bate um coração confidencialmente apaixonado por elas.
São platônicos nossos aplausos!
Não são apenas mulheres, são filhas do encanto e da beleza,
Mensageiras das divindades que, por ato de amor, criaram a dança,
Dança que embala o movimento de fortes e boas emoções sacudindo dentro da gente.
Seu credo é de que, bailando, espalham no ar generosas porções de cura para todos os males do mundo.
Curam até espinhela caída, se esse for o mal que acomete o assistente.
Curam o estresse e a gripe da indiferença, a cefaléia do egoísmo e a dor de cotovelo
De um amor perdido.
Com gestos elegantes e delicados, falam da cultura das tribos ciganas, da musicalidade dos povos do deserto e da paixão da gente de nuestra américa,
E seus corpos nos contam estórias para as quais somos crianças embasbacadas com todas as cores do arco-íris a nos tingir os olhos da fantasia.
Ah! Essas bailarinas!
Se elas dançam, eu danço, e dançamos todos nós no compasso da sedução, na asa delta da imaginação, no vôo mágico do tapete tecido por elas no palco da vida.
São belas por dádiva de Deus,
São fadas por encantamento,
São altivas pelo esplendor de sua dignidade,
São guerreiras das lutas gestuais,
São estrelas que nos apaixonam e seguem espalhando luz pelo espaço sideral,
São expressões infinitas do horizonte feminino,
E são, por fim, mulheres impregnadas de imensa dose de amor no recôncavo da alma,
Para que o homem não se sinta só e as ame secreta e profundamente por alguns minutos
Que parece e quem dera fosse a Eternidade!

Adeus ao elegante instrumentista da kizomba Guaporé!

Publicado 19/04/2011 por basinho
Categorias: Arte, Crônica, Cultura

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por Antônio Serpa do Amaral Filho

Genésio, o chorão do Villas Bar

Na madrugada de ontem (11/04), calou-se para sempre o cavaquinho de Genésio, o chorão do Villas Bar, parceiro de Bubu Johnson, o Noite Ilustrada de Rondônia; de Nicodemus, mestre em violão de sete cordas, do grande violeiro Norman Johnson Júnior e do baterista Júnior Lopes, no espetáculo Prisma Luminoso. Com esses seletos artistas Genésio viveu intensos momentos de notoriedade, em noites memoráveis vivenciadas no já extinto Villas Bar, localizado na Avenida Carlos Gomes, no centro da cidade.

Genésio era um daqueles migrantes que os nativos deste chão se orgulham de receber nestas plagas karipunas: aquele que vem para efetivamente somar, multiplicar e dividir arte, conhecimento, profissionalismo, talento e poesia. Como um apátrida cigano em perene peregrinação pelos quatro quadrantes do território brasileiro, Genésio era um pássaro arigó que em revoada circense pela amazônia ocidental se encantou com os beiradões rondonienses e por aqui fincou raízes, fez carreira e construiu sua eterna morada. Corria o ano de 1986 quando ele, tocando em tenda de circo, aqui em Porto Velho, se passou para a banda Cobras do Forró, tomou apego pela cidade e desempenhou em seguida a função de professor de música.

Ao escolher Rondônia para viver e executar seus inúmeros concertos musicais no mais variados ambientes culturais, Genésio já trazia consigo uma invejável folha corrida de bons serviços prestados à música popular brasileira. Do Rei do Baião a Waldik Soriano, de Reginaldo Rossi a Trio Nordestino, passando por Alípio Martins, Maurício Reis, Fernando Lélis e tantos outros, muitos foram os que provaram do tempero brasileiríssimo da sua guitarra, do seu violão ou do seu sentimental, impecável e ébrio cavaquinho.

Perfeitamente ambientado aos recantos melódicos porto-velhenses, Genésio tinha trânsito livre em todas as tribos culturais, se embrenhando tanto numa pajelança de boi-bumbá do majestoso Corre Campo ou Az de Ouro quanto num desfile de escola de samba; participava com desenvoltura da roda de samba, do pagode, do chorinho chorado, da seresta demodê ou mostra livre de MPB. Todas as torrentes de paixão se harmonizavam no seu coração recheado de talento e espiritualidade musical. Dessa arte foi servo humilde, cativo e seleto. Seus pulmões existenciais tinham na música seu oxigênio predileto e irremediável. Por isso respirava acordes, quadrados, perfeitos ou dissonantes, com sétima ou com nona aumentada, como quem sorve da atmosfera a alegria de viver das doses homeopáticas do bom ar produzido pela floresta amazônica durante os dias de intenso sol. Porém, depois de percorrer em regozijo uma bela escala ascendente, iniciou, forçado pelo câncer, a dolorosa digitação da sua escala descendente até atingir o silêncio absoluto, a não-nota, pausa que embora seja fúnebre, também faz parte da notação musical na grande peça orquestral que é a vida. No céu, pela sua dignidade afro-descendente, pela soberana humildade dos virtuoses e servidão incondicional com que se entregou à arte de fazer o povo sorrir e cantar com seus quindins tônicos e ligeiros, no cavaquinho, Genésio a essa hora está sentado à direita de Valdir Azevedo.

Cuidamos mal da saúde de Genésio, a sociedade se diverte mas cuida muito mal dos seus fazedores de emoção e arte. Em regra eles vivem à míngua, se contentando com pequenas sobras do banquete bilionário servido ao redor do fazimento das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. Todavia, apesar dessa ingratidão social, a vida de Genésio entre nós se transformou em sonata da qual não podemos dizer que temos saudade porque ela ecoa todos os dias na caixa acústica de nossos espíritos como um réquiem em culto à alma do homem que encheu a cidade de luz com vagalumes que alçavam vôo de seu instrumento, o cavaquinho, executado com maestria e fineza, como conviria ao mais elegante instrumentista da kizomba Guaporé. A ele, o nosso Adeus!

Eduardo Valverde: o Senhor da Aliança

Publicado 14/03/2011 por basinho
Categorias: Crônica, Informação, Política

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por Antônio Serpa do Amaral Filho


Presidenta Dilma Rousselff: Valverde cumpriu papel importante na esfera política nacional

Na curva da vida dois militantes do Partido dos Trabalhadores encontraram a morte: Eduardo Valverde, uma das maiores lideranças do PT no Estado, e Ely Bezerra, um dedicado e histórico militante, com muitos serviços prestados ao partido e suas bandeiras de luta. Seus corpos, moribundos e quixotescos, exibidos sensacionalisticamente por alguns jornais virtuais, espalharam uma nova onda de dor e sofrimento à comunidade rondoniense, como se fosse o reciclo de uma funesta tsunami revirando de cabeça pra baixo os corações de nossa gente. Morreram como dois construtores de novos horizontes, dois organizadores de comunas, politizadores de trabalhadores do campo e da cidade, dois sonhadores, dois caminhantes, sem dúvida, mas não eram cavaleiros tão errantes assim. E até eram, na medida em que misturavam nos seus corações poções de utopias que antes se tinha por irreconciliáveis: política e religião, o cristianismo e o marxismo. Deus no céu e o homem na terra como único fazedor da sua História. A fé da devoção e a prática histórica da transformação.

A ação política em busca do justo obrigava Valverde e Ely a peregrinarem pelos mais diversos recantos do Estado. E foi assim, como socialistas cristãos, acendendo uma vela pra Deus e outra para o marxismo-leninismo, que os dois tombaram na curva da estrada, em meio ao caminho que os levava ao exercício da política, uma cachaça com sabor de credo que lhes embriagava a alma e incendiava seus corações de agentes transformadores da realidade humana.

Faleceram em missão como dois soldados da democracia, dois leais escudeiros do PT, dois brasileiros procurando as pessoas do povo, seus iguais, camaradas, companheiros e companheiras, campesinos e campesinas, rondonianos e rondonianas, para compartilhar com eles o pão da esperança por dias melhores – melhor para o homem e para a mulher que têm a garganta ressecada pela sede de justiça social, melhor para o trabalhador e para a trabalhadora que mercadejam, de sol a sol, para sobreviver, o ânima de seus corpos explorados, utilizados como matéria-prima na produção dos bens da vida.

Quando a lâmina das ferragens retorcidas feriu de morte os dois peregrinos da política, um grito lancinante ecoou da planície amazônica até o planalto central do Brasil. Sensibilizada com a perda de um grande quadro do partido na região norte do país, a presidente Dilma Rousselff fez menção ao falecimento do deputado petista e falou da importância de Valverde para o cenário político nacional, onde se destacou por seus méritos e competência política muito acima da média brasileira. Seu legado como homem público atuante toma corpo na sua atuação parlamentar, partidária e intelectual. Valverde não era um sujeito carismático, não sabia empolgar nem às massas nem à militância do seu próprio partido. Queria ser governador de Rondônia, não foi. Queria ser prefeito de Porto Velho, e já não pode ser. Na política, desejava ser um executivo, mas sua excelente performance parlamentar parecia sinalizar para o eleitorado que ele não tinha cacife para tanto. Parecia esculpido para o ofício do parlartório, não para comandar máquina administrativa. De Lula pra cá, o Partido dos Trabalhadores mudou muito e Eduardo Valverde, embora inteligente e analítico, parece não percebido a mudança conjuntural de sua agremiação partidária. O clássico romantismo vermelho cedeu lugar a um fenômeno que vem metamorfoseando o PT: uma onda de pragmatismo maquiavélico, no bom sentido, misturada com pitadas de personalismo e desbotamento das tonalidades vermelho, vermelhaço, vermelhão da utopia socialista. A fogueira das vaidades vem assando a batata de muitos correligionários do prefeito Roberto Sobrinho. Tem petista amando mais ao poder que ao projeto partidário; têm militantes pousando de médicos quando na verdade não passam de práticos de farmácia; tem fogo de monturo ameaçando destruir o patrimônio partidário que os petistas históricos edificaram e lutam para mantê-lo intacto.

O PT que deu combate acirrado aos mandos e desmandos de Jerônimo Santana, Osvaldo Piana e José de Abreu Bianco já não é mais o mesmo e por isso precisa se reciclar e se reencontrar, até para fazer jus à exemplar e ilibada conduta política que Eduardo Valverde deixou de herança, tanto para os petistas como para todos os segmentos da sociedade karipuna. O nobre parlamentar não fez da política um palco – lugar de show. Nem fez da sua atuação um teatro do bom mocismo – para agradar ao público em geral. Na sua luta pela melhoria da qualidade de vida para todos, na pólis, ele escolheu a dignidade, a ética, a transparência e o diálogo como condutores fiéis de seu destino. Com sua áurea franciscana, sabia como ninguém manusear a arte da composição e da conversa. Levou consigo para o túmulo, quem sabe, a decepção de não ter visto a companheirada vestir a camisa da sua candidatura ao governo, na proporção e intensidade que ele imaginara para sagrar-se vitorioso nas urnas – coisa que só o bom e velho Nicolau Maquiavel sabe explicar.

E para quem pensa que a palavra Valverde decorre de uma composição por aglutinação e significa vale verde, pode tirar o cavalo da chuva, já que, com sua morte, ele nos obrigou a descobrir que seu nome, do hebraico, derivado de baal-berith, quer dizer literalmente Senhor da Aliança – o que de fato ele foi na sua trajetória existencial, no parlamento, no partido, no carnaval, no templo, no Mercado Cultural, no amor, na lida, na vida e na morte, para a sorte de todos nós, seus admiradores e herdeiros.

Um Escriba de Rabo Preso com o Leitor

Publicado 13/03/2011 por basinho
Categorias: Crônica, Cultura, Jornalismo

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por Antônio Serpa do Amaral Filho

o guerreiro das letras

Paulo Queiroz Bezerra morreu como escrevia: deliberadamente livre. Não escrevia para viver, vivia para escrever. Por obsequioso voto de renúncia às tentações do mundo, serviu às redações, mas não serviu a si mesmo. O existencialismo de Jean Paul Sartre pode lhe ter dado combustível para o suposto suicídio. Achar valor na vida, todos acham. Paulo Queiroz fez diferente: achou valor também na morte. Como todo falecido, não tinha só boas qualidades. O portentoso escriba tinha imensos defeitos. Um deles, por exemplo, era ter o rabo preso com o leitor. Outro grande defeito dele: o amor pela verdade. Por último, uma das suas maiores invirtudes: era escrevinhador de um texto comprometido com a cidadania, com a justiça e com a crítica social. Dentre outros, esses eram seus principais defeitos.

Com eles permeando e temperando seu ofício de comunicador social, o paraibano de boa cepa se fez lendário e insigne jornalista em nossas plagas. Fez-se grande e sábio sendo simples e despojado. Ao sabor da sua primeira imperfeição moral, aconselhou-se com o jornalismo em pessoa, o inveterado Vinícius Danin, que o orientou a formatar seu texto em blocos tripartite, para que o então jovem e ávido escriba não ficasse por aí atirando a esmo, produzindo textos das mais variadas vertentes e estilos, como se fosse um franco-atirador vernacular vomitando, em cólera, reportagens políticas e policiais, crônicas, análises e notas periodistas das mais variadas performances. Capacho do leitor, e como se fosse um garçom francês, Paulo Queiroz passava dez mil quilômetros longes dos garçons comuns, desses que servem qualquer gororoba aos seus comensais. Paulo, ao contrário, era nobre servente do seu cliente principal, o leitor, sendo por isso requintado na argumentação de suas guloseimas redacionais, caprichoso na construção dos seus períodos e artesanal na ourivesaria das suas peças informativas e analíticas. Por ter o rabo preso com o leitor, não lhe sobrava tempo para garimpar, nos labirintos das trocas de favores, o famoso jabá que os poderosos, em tendo mesmo que lançá-los aos porcos, os aproveitam na alimentação estomacal de alguns lambe-botas que possuem carteirinha de jornalista e que à santa pobreza espiritual dão um ar de grandeza profissional.

É óbvio que Paulo Queiroz era nosso jornalista mais inteligente, mais refinado e culto. Todavia, a destinação que dava aos seus atributos é que não era assim tão óbvia. Errático, ele optou por destinar esse conjunto de talentosas ferramentas ao texto comprometido com a cidadania, sempre morrendo de amor pela verdade, praticante que era de uma literalidade absoluta da etimologia de filo sofo. Não bastasse ter no leitor a maior razão de ser de sua profissão, Paulo via naquele que o lia diariamente não apenas um decodificador mecânico de seus signos de linguagem, mas um cidadão querendo ser informado da maneira mais correta e inteligente possível dos fatos da vida social. Para cumprir esse mister com altivez e maestria, Queiroz lançava mão de uma prática indesculpável: a de só lançar na folha em branco o que fosse produto perfeito e acabado de sua lúcida elucubração histórica, filosófica, política, econômica e social, tendente sempre a enquadrar o fato na perspectiva do justo, sem prejuízo da síntese, do conteúdo, da concisão e da clareza. Ele fazia às vezes de alter ego do povo. Sabia ele que por entre as redações jornalísticas circulam, a par dos nobres, os mais inconfessáveis interesses de grupos políticos e econômicos. Certa feita ele disparou: “Qualquer semelhança entre a Prefeitura de Porto Velho e a Granja Solar no epílogo de “A Revolução dos Bichos” pode não ser mera coincidência.” – disse ele, certa vez, citando o escritor e militante comunista George Orwel, o criador da expressão “Big Brother”, hoje popularizada pelo idiota programa da Rede Globo de Televisão. Mas não fez ácidas críticas apenas à administração petista, atacou com veemência e coragem a postura política dos conservadores, dos enganadores, de Ivo Cassol, donadons, deputados estaduais federais e senadores. Ele não tinha medo da verdade, tinha paixão por ela.

Se quando morre o homem fica a fama, no caso de Paulo Queiroz, morre o homem e fica a chama, a pira incandescente e flamejante da decência profissional, da abnegação vocacional incorruptível, da prática jornalística ilibada, humanística, etílica, risonha e simples de um escriba que tinha o rabo preso com o leitor. Em respeito à sua memória, saúdo seus seguidores e correligionários da mesma confraria redacional. Morto, Paulo Queiroz está vivo entre nós.

Manelão sai da Banda para entrar na História

Publicado 01/03/2011 por basinho
Categorias: Crônica, Cultura, Informação

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por Antônio Serpa do Amaral Filho

Manelão, a morte e o carnaval: uma tríade que hoje chama atenção na mídia local por marcar a partida para a eternidade do maior carnavalesco da folia popular de Rondônia. Todavia, em que pese a tragédia e a dor, todos sabem que essa trindade é antiga, pois há 31 anos eles brincam juntos no mesmo bloco da existência. Dessa longa e inusitada convivência nasceu a mais famosa agremiação festiva do carnaval da região norte brasileira – a troça carnavalesca dos 100 mil brincantes.

Inspirada na famosa Banda de Ipanema, a Banda do Vai Quem Quer veio ao mundo pelas mãos de doze correligionários etílicos que, ante a falta de criatividade e apoio dos administradores públicos aos foliões, resolveram dar a volta por cima na apatia que entediava a cidade e conceberam aquilo que hoje é mais que uma banda, é uma verdadeira confederação de blocos, uma grande nação baconiana a serpentear pelas veredas portovelhenses no sábado de carnaval. Daqueles doze apóstolos, coube a ele, Manelão, o papel de pastor daquele rebanho de ovelhas desgarradas. À Banda ele deu cara, coragem e identidade. Enfrentou fortes tempestades e uma imensa onda de negativismo quando um dos carros de som do Bloco Maria Fumaça, que acompanhava o cortejo, envolveu-se num acidente com vítimas fatais. Mas nada disso o demoveu da idéia de colocar a banda nas ruas. Manelão manteve inabalável sua crença de que era preciso superar a miopia dos administradores da coisa pública e manter a fórmula barata e popular de brincar o carnaval.

O histórico mantenedor da Banda não era apenas um carnavalesco, já que detinha também um outro dom – o da conversa. Manelão era um grande conversador. Gostava como ninguém de uma boa prosa e adorava passar horas nessa atividade coloquial. Dizem as más línguas que ele era o maior fofoqueiro da cidade. Comentam, ainda, que todos os bastidores da chamada vida dos outros poderiam ser sabidos, escutados e comentados em torno de sua mesa de trabalho. Diz a lenda que, em tempos idos, ele e alguns colegas de farra seqüestraram um morto no necrotério do antigo Hospital São José (hoje policlínica da Polícia Militar) e passaram a noite toda zoando com o cadáver, tendo levado o de cujus até o salão principal da Maria Eunice, antigo prostíbulo situado na subesquina da rua Dom Pedro Segundo com a Tenreiro Aranha, no centro da cidade. Para outros, porém, ele não passava de um autêntico contador de causos, do naipe, por exemplo, um Cláudio Feitosa.

A morte do Marechal da Banda na temporada dos festejos momescos não constitui uma fatalidade, é coisa de cumplicidade e amizade de longínquas calendas. Isso porque o Rei da Folia nunca temeu a senhora do destino. Tendo a alegria por credo religioso, ele firmou no coração que hoje nos priva de sua presença a plena convicção de que só há um jeito de negar a morte, que é reafirmando a vida, todos os anos, década após década, numa fantástica quizomba bárbara e popular pelas ruas da cidade, cantando, dançando, bebendo, sem medo de ser feliz. Ao escolher a vida, vivendo intensamente o princípio do prazer, Manelão também escolheu a morte, sabendo que uma é a antítese da outra na dialética da existência. E para que ela não assuste também ao povo, ele ordenou à sua filha: – que saia a banda, apesar da minha morte, para que ela não intime os brincantes do maior bloco de rua da amazônia ocidental. Para o deleite da vida, para a exaltação da alegria e autoafirmação do carnaval popular, o meu corpo fica, mas a banda sai; fica o homem, mas a fé num amanhã melhor não perecerá no coração das massas!

E assim será: baixado o corpo à sepultura, choradas as lágrimas forjadas no vazio da dor e experimentados sentimentos de perda e lamentos pela partida do homem que reinventou a alegria nos prados rondonianos, toda a tropa da patuscada saberá fazer jus ao bem-querer do seu General, e assim marchará altiva e risonha, frenética e anárquica, dançante e indomável, bela e sedutora, despudorada e crítica, pelas ruas da caótica Porto Velho, ungida pelas graças de Momo e unida em torno de um só ideal: mostrar ao mundo que mais do nunca é preciso cantar e alegrar a cidade – como diria o poeta Vinícius de Morais. Da dimensão em que se encontrar, Manelão aplaudirá, pela primeira vez de fora, o desfile da Banda do Vai Quem Quer que criou, e sorrirá, e brindará quem sabe, e abençoará a todos, e haverá festa em seu coração cósmico, e ele descansara no eterno, satisfeito por ter pregado e vivido a paz entre os homens.

Manelão morreu como sempre quis: no berço da alegria que ajudou a criar. Manelão partiu no tempo em que escolheu: um tempo de dança, de canto, de Banda Carijó, de esperança e celebração – o carnaval! Ao desafio de encarar a morte, angústia de quem vive, e conviver com a solidão, fim de quem ama, ele propôs um pacto: vamos estar juntos, brincarmos juntos, festejarmos juntos e cantarmos nossas marchinhas, para mostrar ao sistema e aos seus prepostos que a nossa anarquia mameluca é espiritualmente bem maior do que supõe o projeto capitalista selvagem que vem tentando engessar a pajelança tribal do povo Guaporé!

E tendo dado seu recado e cumprido sua missão celestial na terra, Manelão saiu da Banda para entrar na História.

Golpe de Mestre

Publicado 19/02/2011 por basinho
Categorias: Arte, Crônica, Cultura

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por Antônio Serpa do Amaral Filho

Uma justa homenagem ao professor Eliézer

De repente, apagou-se a luz e a sala foi tomada por assombrosas trevas. Algo precisava ser feito, urgentemente – e foi.

Intuitivo e lépido, o professor Eliézer não se fez de rogado. Tendo a obscuridade por cenário e palco, entoou seu canto poético como se fosse um profeta pregando na escuridão do templo e, por um segundo, o mundo se houvesse permitido escutá-lo.

O reverberar de sua voz inundou a sala, espalhando metáforas que se chocavam nas paredes e resvalavam nos nervos atentos da platéia. Pancadas de vento atiçaram um rio de figuras de linguagem, e o que se viu foram os efeitos especiais de perífrases, onomatopéias e fonemas entrecortando o espaço, para delírio dos corações de estudante.

Pelos ares voaram redondilhas, rimas contundentes, frenéticas, desconcertantes, elegantes, jóias raras daquela atônita catilinária poética. Soltou-se o verbo, e com tal intensidade, que trouxe o adjetivo assinalando os barões, as armas e o poder da palavra em terras dantes lusitanas, num despertar da ilocução, do lírico, do lúdico, do lábaro que ostenta estrelado o verde-louro do povo Mamoré-tupiniquim.

A musicalidade pediu passagem e desfilou risonha, inculta e bela, na passarela da métrica. A cadência do ritmo desfolhou um romântico buquê de notas provençais e correu para o abraço da galera, na Praça Conotativa da Apoteose. A sátira rimou geminado e até curtiu: Minha terra tem palmeiras/de açaí e babaçu/tem o grande rio Madeira/e o famoso candiru/Não permita Deus que eu morra/sem que eu volte pra lá/sem que aviste as palmeiras/e tome meu tacacá…

Feito cavalo de umbanda, o mestre rodou a baiana e trouxe o espírito do trovador medieval, a teimosia de um viandante que insistia em não ir por ali, como se fosse um pajé, um beradeiro, um Bruce Lee. Tomada por sinalefas, antíteses, eufonia e outras esmeraldas cedidas por especial vênia aos imortais, a sala transbordou em poesia, enquanto versos decassílabos e alexandrinos vazavam pelo ladrão.

Encantada, a estudantina era só ouvidos. Inebriada, curtiu o inédito, o pitoresco, um ar fresco reciclando a noite inusitada, batendo de cara com o novo, o ovo de Colombo, redescobrindo a vida e viajando nas asas de um épico beija-flor talhado a verso e prosa. E a alma do artista pôde, então, ser tocada, sorvida, dissecada e experimentada por dentro, auscultada em cena de explícita sensibilidade. Fez-se fim o que era meio, perto o que parecida longe, e houve um despertar do encanto onde só indiferença havia.

A Ceron trouxe de volta a luz, o normal voltou ao normal. Uns viajaram, outros não. É uma pena. Há quem jure não ter visto nada de novo, e que a “manjada” aula de literatura começa sempre com: “O amor é fogo que arde sem que ver/é ferida que dói e não se sente…”.

UMA SAIA VERMELHA NO PODER

Publicado 24/10/2010 por basinho
Categorias: Crônica, Informação, Política

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por Antônio Serpa do Amaral Filho

Faixa Presidencial: uma mulher subirá a rampa do Palácio do Planalto

No dia primeiro de janeiro de 2011 uma mulher subirá a rampa do Palácio do Planalto central do Brasil e assumirá o mais alto cargo da República. Quando isso acontecer ninguém mais se atreverá a lançar sobre a dona da saia a pecha de “sapatão”, “guerrilheira” e “matadora de criançinhas’, como disse a mulher do candidato do PSDB. Tudo balela pra ludibriar a atenção dos incautos populares. Na verdade, a maioria dos que votam em Serra não são serristas autênticos, votam no “Vampiro Brasileiro” por fisiologismo, isto é, porque não tem ninguém mais à direita do tucano para merecer o voto desses conservadores. Não são todos, mas uma boa parte é constituída de reacionários travestidos de sociais-democratas de última hora.

Depois de levar três surras seguidas nas urnas, perdendo para Fernando Henrique Cardoso duas vezes e uma vez para Fernando Collor, o PT finalmente emplacou Lula duas vezes seguidas e a agora emplaca vitoriosamente uma mulher, a ex-Ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousself. Ela é filha da ditadura, da classe média politizada e da intelectualidade de esquerda que abdicou de lutar com armas de fogo para lutar com o que têm de melhor: o intelecto privilegiado. É a saia brasileira no poder. A saia norte-americana tentou chegar primeiro à Casa Branca, mas perdeu ponto para Barak Obama. Em sua melhor performance política, Hillary Clinton é hoje Secretária de Estado dos EUA. Um outro rabo de saia também chegou perto do poder na Casa Branca, mas, como todo mundo sabe, Mônica Lewinsky foi lá só pra fazer sexo oral no dono da casa. O poder do falo falou mais alto que a pudica etiqueta da casa de George Washington.

Aos trancos e barrancos o Brasil vem dando saltos históricos: Lula era plebeu, era alienado mas não era ateu; quando veio do nordeste só trazia a coragem e a cara, viajando num pau de arara, mas chegou. Dilma não é plebéia, mas é atéia, tem coragem de mamar em onça, pegou em arma e enfrentou os brucutus da Ditadura Militar de 64, jamais experimentou a fome e tem sobrenome de bacana – Rousselff. E assim, dia 1º de janeiro, um operário passará a faixa presidencial para uma ex-guerrilheira, comandante-em-chefe de uma das mais ricas economias capitalistas do mundo ocidental, o nosso Brasil brasileiro, esse mulato inzoneiro. A cena de posse é a cara do PT, um partido confederativo, catalisador ideológico dos diversos segmentos sociais: a esquerda trotskysta, leninista, cubana, maoísta, a esquerda católica, profissionais liberais, estudantes, campesinos, comunistas, idealistas, ambientalistas, feministas, democratas, sindicalistas, artistas, classe média, excluídos, e até trabalhadores urbanos do ABC paulista, onde a agremiação partidária nasceu e se fortaleceu.

Convenhamos: o programa de trabalho e a prática administrativa do PT não é nenhuma brastemp, é óbvio, mas ainda assim é bem melhor do que a agenda político-administrativa de José Serra e seus camaradinhas neo-liberais. O atual clima eleitoral também não é uma luta do bem contra o mal, nem uma batalha de gênero, o masculino contra o feminino. É a mais humana das atividades sociais posta em ação, segundo o jogo da democracia burguesa: a política, exercitada com vistas à conquista do poder. Para chegar ao poder o PT fez concessões, acordões e mensalões, é verdade, e com isso perdeu substâncias programáticas importantíssimas. O PT não realizou todas as promessas de campanhas, também é verdade, mas ainda assim suas realizações são muitíssimo mais interessantes para o país que as atuais promessas de Serra. Ante ao contexto circundante, em que pese os erros e acertos do Partido dos Trabalhadores no poder, o voto crítico deve se impor e separar o joio do trigo. Serra é Serra e nunca será mais que um político lugar-comum, a serviço de quem sempre mamou nas tetas profanas da pátria. Dilma é Dilma e se revelará uma grande guerreira das transformações, empunhando, agora, as armas da civilização, da legalidade, da democracia e da ação social para promover as mudanças, políticas, econômicas e sociais que as elites vêm adiando desde o clamor da Revolução Praieira nas plagas Pernambucanas.

Ângela Merkel, (Alemanha), Ellen Johnson Sirleaf, (Libéria), e Michelle Bachelet (Chile) à parte, mulher e poder nem sempre dá uma mistura interessante. Dona Maria I, a louca rainha de Portugal, perseguiu impiedosamente o Marquês de Pombal, o déspota esclarecido que revolucionou a administração imperial. A Princesa Isabel posou de marionete da corte ao assinar a Lei Áurea, extinguindo a escravidão, mais para atender aos interesses do capitalismo inglês do que pra fazer justiça à gente de Zumbi dos Palmares. Maria Antonieta mandou o povo francês, descamisado e sem calção (sans cullote), comer brioche, já que não tinha dinheiro para comprar o pão nosso de cada dia. A própria Marta Suplicy mandou o povão relaxar e gozar, em meio à crise nos aeroportos.

Com a mulher Dilma Rousself na presidência da república, porém, a história será bem diferente. Ela carrega consigo a coragem de Anita Garibaldi, o gosto pela guerra de Joana D’arc e a determinação de Olga Benário. Seu coração vermelho vermelhaço vermelhão tem sede de justiça social; seu espírito está impregnado da utopia socialista; sua mente brilhante não estará, creio, a serviço do capital, dos potentados, dos corruptos e dos especuladores, mas a serviço dos que clamam por emprego, saúde e segurança públicas, aposentadoria justa, educação, meio ambiente saudável, transporte público de qualidade, moradia, cultura, lazer e uma boa alimentação, para que o povo brasileiro viva melhor. Viver, aliás, não é preciso. Ver uma saia vermelha no poder, sim, é preciso.

SHOW DO CHICO DA SILVA: BOM ATÉ DEBAIXO D’ÁGUA!

Publicado 24/10/2010 por basinho
Categorias: Cultura, Música

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por Antônio Serpa do Amaral Filho

o manauara que nasceu pra cantar samba, no Mercado Cultural de Porto Velho

Um verdadeiro fazedor da arte popular do nosso chão montou sua banca artística na calçada do Bar do Zizi, no Mercado Cultural de Porto Velho, onde acontece todas as sextas-feiras os módulos do Projeto Fina Flor do Samba. Chama-se Francisco Ferreira da Silva, de pia batismal e certidão de nascimento. Mas no coração do povo manauara ele é conhecido apenas por Chico da Silva. Um Francisco cantante, um Chico compositor. É sambista de boa cepa, mas também faz música de boi-bumbá. Seu coração de curumim criado sem cueca nos arredores de Parintins bate cadenciado na cores azul e branco, mas seu grande sucesso nacional veio na bandeira degradê da nação que venera a figura folclórica do boi vermelho, vermelhaço, vermelhão.

Chico tem inúmeras músicas gravadas por gente de renome na calçada da fama da chamada Música Popular Brasileira, como Alcione, a Marron, por exemplo. Mas disso não faz muito alarde. Sua alma de caboclo lhe faz sábio e comedido. No Bar do Zizi, apenas cantou. Chegou, cumprimentou o público e cantou com alma de artista o que sabe cantar e compor: samba. Boa parte do público conhecia suas composições, por isso interpretou com ele, em coro, os velhos sucessos do artista. Empolgado com o coral de vozes entoando suas composições, ele caminhou no meio do povo, feliz e descontraído, como um ribeirinho dando canga pé em beira rio de água doce.

Chico canta como quem joga conversa fora do botequim da esquina – descontraidamente, olhando nos olhos das pessoas, despojado e contente. Atuando no palco, não inventa moda nem falsetes de última hora. Deixa fluir simplesmente, em vários figurinos rítmicos, o seu esquadrão do samba, enquanto um pandeiro rebate no gol e na defesa bate o tamborim. Caprichoso por formação e batismo, ele também compõe para o boi Garantido, posto que no Amazonas a artista nenhum é dado o direito de se atrever a cantar música de apenas um boi. Sua sina franciscana lhe fez nascer na da cidade da ilha tupinabarama, mas cedo ganhou o mundo e já trabalhou até com um dos monstros sagrados da cultura nacional: o sambista Martinho da Vila. Quando desfrutava o apogeu da carreira artística uma doença grave tentou roubar-lhe a saúde e a voz. Todavia, ele lutou feito um bravo guerreiro dos parintintins e soube vencer a enfermidade, conseguindo também recuperar a voz que, no dia 01 de outubro último, ecoou por todo o quadrante do centro histórico da capital, no palco do Fina Flor do Samba.

É preciso muito amor, Sufoco, O Barba Azul, Bailarina e Convite a Roberto Carlos foram algumas das criações que Chico da Silva mostrou ao público rondoniense. Ele foi trazido à capital pelo compositor e intérprete Ernesto Melo, graças a uma super-vaquinha que arrecadou dinheiro de vários simpatizantes do projeto cultural que acontece no Mercado Cultural de Porto Velho. O que era pra ser um show transformou-se numa grande festa popular. Calcula-se ter sido o segundo maior público do Projeto Fina do Samba até hoje. Apesar da chuva ter jogado muita água na apresentação de Chico da Silva, ele soube conquistar o coração da platéia, fazendo-a dançar e cantar suas músicas, como um regente bem-amado conduzindo a massa à performance de uma ópera popular, na qual o povo é quem produz o show e assina a direção.

Chico da Silva poderia holywoodianamente seguir cantando na chuva, porque o show desse caboclo é bom até debaixo d’água!

MOTORISTA DA CAÇAMBADA CUTUBA PEDIU PRA MORRER

Publicado 27/09/2010 por basinho
Categorias: Informação, Opinião, Política

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por Antônio Serpa do Amaral Filho

Renato Medeiros, líder dos ‘peles-curtas’, exibindo um doc para João Goulart

Decorridos 48 anos de profundo silêncio em torno da Caçambada Cutuba, documentos revelam, hoje, que o motorista da caçamba, Wilson, arrependido do gesto bárbaro, pediu pra morrer: “Cumpadre, eu fui mandado, você me dê um tiro na cabeça que eu o perdôo”, teria dito, na cadeia, o suposto autor do terrorismo político ao seu compadre e testemunha Ladislau Nunes de Araújo, guarda territorial ouvido no dia 27 de setembro de 1962, pelo juiz Joel de Moura Quaresma, no Processo Criminal nº 3672, instaurado pela Justiça Federal do território para apurar judicialmente o dramático fato social. A fonte é fidedigna: cópias de autos conseguidas pelo jornalista Zola Xavier junto ao Centro de Documentação Histórica do TJ/RO.

O atentado que ceifou a vida de muitos correligionários da primeira grande Frente Popular de Esquerda chocou toda a provinciana Porto Velho de antanho e ocorrera um dia antes, numa calorenta noite de 26 de setembro de 1962, na rua Lauro Sodré, quase chegando na rua Abunã, próximo ao cabaré da Delícia, quando um veículo tipo caçamba, chapa branca, pertencente à prefeitura municipal de Porto Velho, que estava vindo do comício dos cutubas, no bairro do Areal, foi lançado contra os partidários do então candidato a deputado federal Renato Clímaco Borralho de Medeiros, presidente do Partido Social Progressista e líder dos Peles-Curtas, que disputava a vaga parlamentar com o coronel Ênio dos Santos Pinheiro, que já houvera sido governador do Território Federal de Rondônia em 1953, por indicação do mesmo padrinho que o apoiava em 1962: o também coronel Aluízio Pinheiro Ferreira, chefe dos Cutubas (partidários do aluizismo) e maior liderança da história política de Rondônia. O prefeito da época era o cutuba sangue puro José Saléh Morheb. Os mais velhos dizem que muita gente morreu, mas não se tem até hoje a contabilidade desses mortos.

Com certa dose de ironia a atormentar a amnésia dos guaporés, está escrito em latim na capa do que restou dos registros penais do episódio da Caçambada Cutuba que o processo criminal é do tipo Ad Perpetuam Rei Menoriam, isto é, para a perpétua memória do fato. Se assim deseja o Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia e a deusa Thêmis, que usa venda nos olhos, mas não é doida varrida, vale registrar para os anais da história que foi o advogado Fouad Darwich Zacharias o causídico que arrolou e requereu a inquirição dos guardas territoriais José Faustino de Oliveira, José Rodrigues Maciel e Ladislau Nunes de Araújo, como testemunhas. Era a reação Pele-Curta ao atentado.

Às dez da manhã do dia 27, no Fórum Ruy Barbosa, a postos o escrivão Durval Gadelha, o Dr. Hélio Fonseca, Promotor Público Substituto, o Dr. Fouad Darwich e o juiz Joel Quaresma de Moura, as três testemunhas foram ouvidas pela justiça. Revelou o depoente Ladislau “que diversas vezes repetiu o preso ao depoente que havia sido mandado e pediu que lhe desse um tiro na cabeça”; “que perguntou-lhe mais o depoente se estava embriagado ao que o preso em questão lhe disse que não, que estava bom”; “que esclarece o depoente que fez essas perguntas ao preso enquanto estava trancando a cela”. Na versão do guarda José Maciel, depois de introduzi-lo na cela, o guarda Ladislau lhe perguntou: “Cumpadre porque é que você fez isso?” “Que respondeu ele numa expressão equivalente ao sentido de dizer que estava desgraçado” Para uma quarta testemunha a depor no processo, o senhor João Marques Vasconcelos, também da Guarda Territorial, o diálogo dele com o motorista da caçamba teria sido o seguinte: “Compadre, você que é chefe de família, como é que foi meter-se numa enrascada dessa?” Então o preso respondeu “aproximadamente com essas palavras: fui mandado para distribuir o pessoal do comício e ao chegar próximo do lugar do comício, quando vi a massa procurei estacionar o carro mas o freio enganchou no acelerador e quanto mais pisava no freio, mais acelerava o carro”. Não há nos documentos pesquisados nem a peça de interrogatório do motorista da caçamba nem a sentença, condenando ou absolvendo o réu. A justiça rondoniense deve saber explicar o porquê.
Para os que acham que a Caçambada Cutuba é um delírio inventado ao sabor do revanchismo histórico, a voz da perpétua memória do fato fala mais alto nos dizeres que um serventuário da justiça deixou escrito na folha de rosto do documento conseguido por Zola Xavier, o Caçador de Alfarrábios da Biblioteca Nacional:
“Obs: O sr. Wilson de Tal, motorista da Prefeitura Municipal de Porto Velho, investiu com o caminhão contra o povo num comício político. Segundo testemunhas, o criminoso alega ter sido a mando de alguém”.

Saber quem deu a sinistra ordem ao humilde motorista da prefeitura continua sendo um segredo insondável, incrustado na região subcutânea da página histórica sentimentalmente mais eloqüente da política regional: o apaixonado embate entre as belicosas nações dos Cutubas e Peles-Curtas.


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