O adeus a Orlando Pereira, o Sambista da Simplicidade

Posted 16/11/2009 by basinho
Categories: Arte, Informação, Música

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Orlando do Estácio, Neguinho do Triângulo O adeus a Orlando da viola encantada

Sorrateiramente, assim como veio, o artista Orlando Pereira partiu aos 57 anos, quase sem querer, sem muito alarde, e assim foi enterrado no Cemitério dos Inocentes, na tarde de sexta-feira, dia 06 de novembro, dia chuvoso e triste, como se a natureza, sentida, expressasse seu lamento de dor pela perda do sambista. Deixou saudades e levou sua marca principal, a simplicidade; deixou composições e levou consigo o segredo de um suingue invejável, no violão; carregou em seu peito muitas emoções e deixou belas e marcantes páginas de sua presença no palco, iluminando com sua negritude autêntica cantos e recantos da música popular brasileira, como uma pedra rara esquecida à margem dos trilhos da calendária Madeira-Mamoré. Paradoxalmente, o Neguinho Orlando partiu e ficou, ao mesmo tempo, posto que sua obra há de personificar para sempre sua estada na comunidade cultural de Porto Velho.

Ele nasceu Orlando Pereira, do Estácio, mas às margens do pachorrento rio Madeira recebeu a comenda de Neguinho do Triângulo, bairro onde morava e no qual desenvolveu trabalho político-social, sendo lembrado pelos amigos, na hora despedida, essa sua militância como líder comunitário. Como se fosse um caiçara amante das águas, trocou seu Rio de Janeiro pela companhia de um outro rio, o Madeira, com seu botos, lendas e mistérios. Aqui ele conheceu derrotas, vícios, ócios, vitórias, esperança e principalmente um sentido para tocar a vida pra frente. Amou suas parceiras e teve filhos. Talvez por isso morreu sorrindo.

A tarde chuvosa e fria de 06 de novembro serviu de moldura para a partida do Neguinho Orlando. Na saída do caixão da Casa de Cultura Ivan Marrocos, onde transcorreu o velório, ajudavam a segurar as alças laterais da urna funerária o intérprete Jesuá Johnson, o Bubú, e o jornalista e escritor Adaides Batista dos Santos, o Dadá. Era a homenagem secreta do outrora grupo Cabeça de Negro, organização cultural da qual Orlando fez parte, sendo inclusive o criador do nome da entidade. O caixão deixou a Ivan Marrocos sob salva de palmas. Poucas, é verdade. Mas sinceras e sentidas. “Orlando tinha amigos não pelo critério da quantidade, mas sim pelo critério da qualidade” – afirmou um xará do falecido à beira do caixão, na descida do corpo à cova, no Cemitério dos Inocentes.

A tradição manda que o sambista seja enterrado ao som da batida do surdo, executada a cada dois compassos de tempo. No enterro de Orlando do Triângulo, no entanto, os bambas de Porto Velho preferiram entoar sambas de raiz, ao som de cavaquinho, tantã e ganzá, cantando de forma emocionada para o adeus ao Orlando da viola encantada. Partiu, assim, o sambista da simplicidade. Dentre outras pessoas, fizeram-se presentes na última aparição do Neguinho Orlando no show da vida: Ernesto Melo, Sílvio Santos, Mara Valverde, Tácito Pereira, Tatá, Berenice Perpétua, Hugo Evangelista, Moreira, Zé Baixinho, Wadilson, Oscar Night, Bubu, Norman Johnson e Maracanã.

Bubu Nunca Cantou Num Teatro

Posted 05/10/2009 by basinho
Categories: Arte, Cultura, Música

Tags: , , , , , ,

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Prisma Luminoso Ao Prisma Luminoso do Banzeiros Bubu canta e encanta

Ao se apresentar na Quinta Cultural patrocinada pelo Banco da Amazônia S/A, o intérprete Jesuá Johnson, filho de uma das mais tradicionais famílias de Porto Velho, confessou em público: “Eu estou muito feliz de estar aqui com vocês; eu nunca cantei num teatro”. E riu, e rir, e ria da sua radical e genuína declaração. E o povo sacou muito bem que o papo era de coração pra coração. Por isso, o público gostou e aplaudiu a sinceridade do artista, exposta a queima-roupa, sem os arranjos do racionalismo. Até porque era mesmo a primeira vez que ele pisava no palco de um teatro, o Teatro Banzeiros, recentemente inaugurado pela prefeitura municipal de Porto Velho. Bubu já passou dos 50 e deve estar próximo aos 60 anos de vida. Criador do lendário Projeto Cinco e Meia e produtor cultural por mais de três décadas, ele agora resolveu ser cantador.

Prisma Luminoso é o nome do seu espetáculo – uma homenagem, supõe-se, ao mestre Paulinho da Viola, que tem um disco com o mesmo nome, conforme sacou o jornalista Zola Xavier da Silveira, em conversa de bastidores, enquanto gravava todo o show para um documentário. Quando sobe ao palco ele se faz acompanhar de Norman Júnior, no violão de seis cordas; Nicodemo, no violão de sete; Genésio, no cavaquinho; e Júnior Lopes, na bateria. Foi com esse time de bambas que ele, dia 24 de setembro passado, como se grego fosse e saltasse do mito para o logus, apresentou-se para uma casa cheia, cheia de gente, cheia de luz e sensibilidade, cheia, enfim, de pessoas felizes por vê-lo ali no palco, reluzindo como uma pérola negra a serviço do belo, da inteligência e da criatividade brasileira. Ana Aranda, sua mulher, Mayela e Verinha, seus rebentos, de certo foram, no seu íntimo, os homenageados daquela noite.

Como se fosse um babalorixá do terreiro do Samburucu ou Santa Bárbara, entoando canto inicial da ritualística de umbanda, ele homenageou seus antepassados e todos os mortos representados em cada dormente da Ferrovia do Diabo, e cantou pausada, solenemente e em capela: Você Precisa Ver/Para Saber Como É/Que andava o Trem na Madeira-Mamoré! Conquistado o coração da platéia com essa abertura, ele saltou do trem e correu trecho até chegar ao bairro do areal para contar um pouco das travessuras de um certo “moleque atrevido, pior que bandido, que se criou no areal”. Desfolhando os versos do poeta Dadá, ele confessou à galera que “assistiu a destruição da Baixa da União pelos Generais”, entrelaçando aos acordes as sacadas críticas e a visão histórica do autor de A Sobra das Noites. Do passeio pelo samba crítico dos compositores Guaporés ele foi ter com os grandes mestres da chamada música popular brasileira. Cantou Noel, Paulinho da Viola e Chico Buarque. Cantou Elton Medeiros, Ney Lopes, Cartola e Nelson Cavaquinho, e tantas outras páginas antológicas da musicalidade tupiniquim.

Bubu, o Cristo Negro, cujo nome de batismo “Jesuá” deriva, segundo alguns pesquisadores, da forma “Yeshua”, em aramaico, e quer dizer Jesus, realmente nunca foi cantor de teatro. Ele sempre foi cantador de boteco, puxador de samba de botequim, sussurrador de bossa-nova em clubes da esquina e contador de prosa em mesa de bar, lugar onde o homem é mais sincero, no dizer do jornalista e aprendiz de filósofo Paulo Queiroz. Como homem negro e descendente direto de barbadianos, nascido da união de Norman e Elvira Johnson, ele deve ter ouvido suas primeiras cantorias de ninar na língua de William Shakespeare. Teria nascido para ser jogador de basquete – sua grande prática esportiva quando moço -, mas um anjo safado, um chato de um querubim sussurrou no seu ouvido coisas que ele só entenderia mais tarde, tomando a saideira com Dadá e Flávio Carneiro no oitavo botequim. Ouvidor de Milton Nascimento e James Brow, Paulinho da Viola e Cartola, teve sua musicalidade forjada e construída nos bares da vida. Quando adquiriu consciência política da problemática social da gente de Zumbi, fez sua própria cabeça de negro e foi à luta, militar nos movimentos da causa da raça negra. De bar em bar, na convivência com notívagos, com poetas e com a música jorrando ao vivo, nua crua, sem efeitos de estúdio nem reverberações acústicas e tecnológicas, Bubu fez escola de canto na boêmia e foi nela que aprendeu a modular a voz, a imprimir ritmo e movimento ao frasal cantado; a conceber emoção, admiração e fantasia ao mais simples enunciado de um samba acompanhado em caixa de fósforo. A noite lhe serviu de conservatório. Aprendeu com Noel que o samba não vem do morro nem lá da cidade. Da Bossa-Nova ele incorporou a malícia de fazer de conta que está cantando, quando na verdade está apenas confidenciando baixinho, em sussurro, suas mágoas de amor. Tomando uma aqui, outra ali no bar da esquina, ele entregou seu coração à arte do canto, que construiu ninho em sua alma e impregnou todo seu ser, transformando-o num cantante nada técnico, nada convencional, mas extremamente sensível, intuitivo e bêbado de paixão por um lugar ao sol à mesa do melhor da música popular brasileira.

Bubu definitivamente não nasceu para cantar. Mas ao entregar sua alma aos rituais de magia em noites de lua cheia, em meio aos homens vazios que enchem os bares do mundo de vida e espiritualidade, quando a cidade dorme, passou a cantar como quem precisa respirar para viver. Elegeu o coração, e não a boca seu principal instrumento vocal. Luminosa fez-se sua alma. Sedento de verdade é seu espírito, na canção. Cantou e encantou a todos, sem nunca ter cantando num teatro. É messiânico ao cantar, lançando bênçãos de bem-aventurança sobre si e para os que o ouvem. Cantando, o Cristo Negro, por sessenta minutos, tem o dom de perdoar todos os pecados do mundo. O único pecado original permitido é o de invocar os deuses brancos e negros da poesia. Por isso essa sua força estranha.

Livro Pode Ajudar a Curar a Cegueira do Nosso Olhar

Posted 21/09/2009 by basinho
Categories: Arte, Cultura

Tags: , , , ,

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Cobra Um Olhar Sobre a Arte de Júlio Carvalho

O artista plástico Júlio César de Carvalho lançou recentemente a obra “Um Olhar Sobre o Urbanismo e a Arquitetura de Porto Velho”. Com encadernação de primeira qualidade e objetivo não menos nobre, o livro traz a proposta de passar em revista uma das mais expressivas formas de cultura do homo sapiens: a concepção arquitetônica com suas formas, materiais, volumes, cores, estilos, ângulos, funções e serventia social. A obra não se prende a mostragem saudosista das edificações, cantos e recantos porto-velhenses. Trata-se na verdade de uma instigante leitura do autor sobre a formatação urbana que se desencadeou à margem do Madeira, desde o nascimento da cidade até hoje.

O trabalho foi lançado no Mercado Cultural, em solenidade timidamente divulgada e pouco prestigiada pelas autoridades constituídas, e chega ao público em meio ao imbróglio e ao caos urbano em que a cidade está atolada. Daí a oportuna sacada do autor em lançar Um Olhar Sobre o Urbanismo e a Arquitetura de Porto Velho – um inventário histórico, plástico, revelador das nossas facetas geométricas e dos estilos das nossas construções, suas tendências, influências e expressões estéticas no espaço e no tempo.

Um olho na obra de Júlio Carvalho, outro na realidade, vê-se que Porto Velho está irreconhecível. Proporcionalmente, é campeã brasileira de homicídios, de acidentes no trânsito e violência urbana. O povo vive com a tensão à flor da pele, numa situação bem diferenciada daquela descrita em muitas fotos contidas no livro em que Júlio revela uma Porto Velho que não conhecia a palavra estresse, a vida fluía calmamente e as relações tinham mais profundidade e conteúdo. Na foto, a imagem tem o poder de congelar esse tempo bom, para espanto dos incrédulos e orgasmo dos saudosistas.

A construção civil se impõe como principal elemento propulsor da nossa atmosfera urbana. A plástica urbanística da cidade parece o samba do crioulo doido, metamorfoseando-se subitamente como se o mundo fosse acabar amanhã. E nós, como diz o livro de Carvalho, “silenciamos diante do ‘assassinato’ da memória coletiva mais expressiva e visível que é a arquitetura, uma linguagem tão universal que traduz, com grande exatidão, a idéia de uma época e a visão de seu passado.” O choque entre Capital e Trabalho já produz seus primeiros efeitos, e a greve, que antes, na economia do contra-cheque, era feita somente na seara da administração pública, agora eclode como uma explosão atlântica no centro da urbe, quebrando um pouco da monotonia e da cumplicidade em torno dos rumos sociais, econômicos e culturais que o agronegócio e o governo federal nos empurram. Porto Velho é um efervescente canteiro de obras. Os prédios brotam da noite pro dia, emergindo do solo pacto como uma safra surrealista de espigões recheados de ferro e argamassa, manipulados por homens que trabalham feito máquinas tentando executar um desenho lógico à guisa de atender aos interesses do mercado imobiliário – o mais inflacionado do país. Foi-se o tempo em que Raquel Cândido comandava hordas de deserdados e excluídos na promoção de invasões e construção de Caladinhos e outras periferias. Uns dizem que é o fim do mundo. Outros dizem que o progresso chegou, e outros, ainda, denunciam que isso não é desenvolvimento nem aqui nem na conchichina. É burla, circo e falácia. Enquanto os barões da burguesia paulista sonham noite e dia com a chegada da energia do Madeira em seus parques industriais, a nossa medíocre classe política se contenta com as migalhas dos royalties. A visão do povo que antes era praticada horizontalmente agora se espraia verticalmente içada por força da nova angulação urbanística. O olhar proposto na obra de Carvalho não se prende ao senso-comum da descrição pedagógica e iconográfica do conjunto de edificações que foram erguidas nestas paragens desde a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré aos dias de hoje. Os cutubas e pele-curtas sem dúvida sentirão saudades quando se depararem com as cenas protagonizadas por Aluízio Pinheiro Ferreira e Renato Clímaco Borralho de Medeiros – seus líderes. Em suas 178 páginas o livro até cumpre o inevitável mister de ser didático, mas não é só isso, pois também é analítico, dotado de excelente textos e acervo fotográfico de incomensurável valor cultural, e até poderia ser mais crítico, poderia por exemplo se utilizar da voz de autoridade no assunto e ser mais incisivo na defesa do patrimônio histórico, denunciando os crimes de lesa-patrimônio perpetrados por governantes das esferas federal, estadual e municipal – já que Júlio Carvalho entende que “o patrimônio arquitetônico de uma cidade é um capital espiritual, cultural, econômico e social de valores insubstituíveis”.

Dentre outros ângulos e retângulos conceituais, aprendemos com a obra de Júlio Carvalho que as Três Caixas D’água que se postam altivas na praça são testemunhas da influência da Revolução Industrial entre nós. No mesmo diapasão, temos os galpões e o girador da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O ecletismo dos estilos Arte Déco e Art Nouveau conviveram e convivem com a intuição plástica que o beradeiro aplica às suas edificações de paxiúba e pau-a-pique. O livro sugere, enfim, que, em meio as nuances de barroquismo, neoclassicismo e estilo romano, dentre outros, somos a civilização guaporé marchando e plasmando nossas edificações com anseio de dignidade que repercute da alma cabocla e sede de justiça social que nos salta aos olhos. Em sendo criticamente interpretado, o livro de Júlio Carvalho pode ajudar a curar a cegueira que às vezes toma de assalto nosso olhar sobre a cidade. Com ele, o autor presenteia e sacode o município de Porto Velho por seus 95 anos de idade. Parabéns pra nós.

O artista plástico Júlio César de Carvalho lançou recentemente a obra “Um Olhar Sobre o Urbanismo e a Arquitetura de Porto Velho”. Com encadernação de primeira qualidade e objetivo não menos nobre, o livro traz a proposta de passar em revista uma das mais expressivas formas de cultura do homo sapiens: a concepção arquitetônica com suas formas, materiais, volumes, cores, estilos, ângulos, funções e serventia social. A obra não se prende a mostragem saudosista das edificações, cantos e recantos porto-velhenses. Trata-se na verdade de uma instigante leitura do autor sobre a formatação urbana que se desencadeou à margem do Madeira, desde o nascimento da cidade até hoje.

O trabalho foi lançado no Mercado Cultural, em solenidade timidamente divulgada e pouco prestigiada pelas autoridades constituídas, e chega ao público em meio ao imbróglio e ao caos urbano em que a cidade está atolada. Daí a oportuna sacada do autor em lançar Um Olhar Sobre o Urbanismo e a Arquitetura de Porto Velho – um inventário histórico, plástico, revelador das nossas facetas geométricas e dos estilos das nossas construções, suas tendências, influências e expressões estéticas no espaço e no tempo.

Um olho na obra de Júlio Carvalho, outro na realidade, vê-se que Porto Velho está irreconhecível. Proporcionalmente, é campeã brasileira de homicídios, de acidentes no trânsito e violência urbana. O povo vive com a tensão à flor da pele, numa situação bem diferenciada daquela descrita em muitas fotos contidas no livro em que Júlio revela uma Porto Velho que não conhecia a palavra estresse, a vida fluía calmamente e as relações tinham mais profundidade e conteúdo. Na foto, a imagem tem o poder de congelar esse tempo bom, para espanto dos incrédulos e orgasmo dos saudosistas.

A construção civil se impõe como principal elemento propulsor da nossa atmosfera urbana. A plástica urbanística da cidade parece o samba do crioulo doido, metamorfoseando-se subitamente como se o mundo fosse acabar amanhã. E nós, como diz o livro de Carvalho, “silenciamos diante do ‘assassinato’ da memória coletiva mais expressiva e visível que é a arquitetura, uma linguagem tão universal que traduz, com grande exatidão, a idéia de uma época e a visão de seu passado.” O choque entre Capital e Trabalho já produz seus primeiros efeitos, e a greve, que antes, na economia do contra-cheque, era feita somente na seara da administração pública, agora eclode como uma explosão atlântica no centro da urbe, quebrando um pouco da monotonia e da cumplicidade em torno dos rumos sociais, econômicos e culturais que o agronegócio e o governo federal nos empurram. Porto Velho é um efervescente canteiro de obras. Os prédios brotam da noite pro dia, emergindo do solo pacto como uma safra surrealista de espigões recheados de ferro e argamassa, manipulados por homens que trabalham feito máquinas tentando executar um desenho lógico à guisa de atender aos interesses do mercado imobiliário – o mais inflacionado do país. Foi-se o tempo em que Raquel Cândido comandava hordas de deserdados e excluídos na promoção de invasões e construção de Caladinhos e outras periferias. Uns dizem que é o fim do mundo. Outros dizem que o progresso chegou, e outros, ainda, denunciam que isso não é desenvolvimento nem aqui nem na conchichina. É burla, circo e falácia. Enquanto os barões da burguesia paulista sonham noite e dia com a chegada da energia do Madeira em seus parques industriais, a nossa medíocre classe política se contenta com as migalhas dos royalties. A visão do povo que antes era praticada horizontalmente agora se espraia verticalmente içada por força da nova angulação urbanística. O olhar proposto na obra de Carvalho não se prende ao senso-comum da descrição pedagógica e iconográfica do conjunto de edificações que foram erguidas nestas paragens desde a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré aos dias de hoje. Os cutubas e pele-curtas sem dúvida sentirão saudades quando se depararem com as cenas protagonizadas por Aluízio Pinheiro Ferreira e Renato Clímaco Borralho de Medeiros – seus líderes. Em suas 178 páginas o livro até cumpre o inevitável mister de ser didático, mas não é só isso, pois também é analítico, dotado de excelente textos e acervo fotográfico de incomensurável valor cultural, e até poderia ser mais crítico, poderia por exemplo se utilizar da voz de autoridade no assunto e ser mais incisivo na defesa do patrimônio histórico, denunciando os crimes de lesa-patrimônio perpetrados por governantes das esferas federal, estadual e municipal – já que Júlio Carvalho entende que “o patrimônio arquitetônico de uma cidade é um capital espiritual, cultural, econômico e social de valores insubstituíveis”.

Dentre outros ângulos e retângulos conceituais, aprendemos com a obra de Júlio Carvalho que as Três Caixas D’água que se postam altivas na praça são testemunhas da influência da Revolução Industrial entre nós. No mesmo diapasão, temos os galpões e o girador da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O ecletismo dos estilos Arte Déco e Art Nouveau conviveram e convivem com a intuição plástica que o beradeiro aplica às suas edificações de paxiúba e pau-a-pique. O livro sugere, enfim, que, em meio as nuances de barroquismo, neoclassicismo e estilo romano, dentre outros, somos a civilização guaporé marchando e plasmando nossas edificações com anseio de dignidade que repercute da alma cabocla e sede de justiça social que nos salta aos olhos. Em sendo criticamente interpretado, o livro de Júlio Carvalho pode ajudar a curar a cegueira que às vezes toma de assalto nosso olhar sobre a cidade. Com ele, o autor presenteia e sacode o município de Porto Velho por seus 95 anos de idade. Parabéns pra nós.

UM DOS ÚLTIMOS GRANDES COMUNISTAS HABITA ENTRE NÓS

Posted 30/08/2009 by basinho
Categories: Informação, Política

por Antônio Serpa do Amaral Filho

consultor da ONU e professor de Sociologia na UNIR

Clodomir Santos de Morais, um dos últimos grandes comunistas da safra de sonhadores e militantes de esquerda do país, vive hoje em Porto Velho. Aos 81 anos, o ex-homem forte do Partido Comunista Brasileiro junto às Ligas Camponesas é hoje um pacato consultor da ONU e professor de Sociologia na Universidade Federal de Rondônia. Com ele aprendemos, no seu “Dicionário de Reforma Agrária”, que greve, no Brasil, significa uma forma de luta do proletariado, e que, na hispano-américa, além da “huelga”, a clássica paralisação do trabalho, existe ainda a “huelga de brazos caídos”, que é a paralisação de corpo presente na empresa; “huelga de tortuga”, o trabalho desenvolvido em ritmo lento; a “huelga econômica”, a luta por ganhos salariais; a “huelga general”, que abrange todas as categorias de trabalhadores, e muitas outros tipos de “huelga”.

Comunista de alto calado e combatente de nobre estirpe, com direito a curso de guerrilha feito em Cuba, o Doutor Clodomir é um nordestino nascido em Santa Maria da Vitória, Bahia, terra que muito cedo lhe deu régua e compasso para que ele, ainda muito jovem, iniciasse sua perambulância pelo mudo afora. Foi, por exemplo, Conselheiro Regional da ONU para a América Latina em Assuntos de Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural. Monstro sagrado da esquerda nacional, formou-se em Direito no Recife e fez doutorado em Sociologia da Organização na Alemanha. Além disso, tem no seu currículo o registro de especialista em Antropologia Cultural, professor conferencista nas Universidades de Berlim (Alemanha), Winsconsin (Estados Unidos) e em várias universidades mexicanas, como também em universidades de países da América Latina; foi pesquisador da UNCTAD, Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, consultor do PRONAGER – Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda e é autor de 20 livros, sendo alguns deles traduzidos em vários idiomas, e tem ainda outras 33 publicações em jornais, diários e periódicos.

Humanista de boa cepa, o professor Clodomir escolheu o socialismo como sua bandeira de vida e de morte. O comunismo é sua utopia predileta, da qual ele não nunca abriu mão, nem mesmo nos momentos em que foi preso e torturado. O Muro de Berlim caiu. Mas sua meta política continua de pé. Ultimamente ele tem peregrinado, doente, por quartos de hospitais em Porto Velho, mas sem perder a ternura jamais, pois assim que tem um surto de melhora pode ser encontrado prestando assessoria a organismos da ONU, ou simplesmente fazendo palestra ou ministrando cursos em países da América do Norte, Central ou Europa. Semear esperança é hoje sua principal atividade social.

O velho comunista é um militante jurássico, daqueles exemplares que hoje se conta nos dedos das mãos, remontando a época em que o mundo se equilibrava na corda bamba estendida entre dois blocos hegemônicos: o bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América, e o bloco socialista, encabeçado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Durante a Ditadura Militar que se instalou no país a partir de março de 1964, ele atuou, ao lado do lendário Francisco Julião, nas chamadas Ligas Camponesas, organização política do campesinato nordestino que teve origem na década de 1940 e que, na sua formação, contou com a participação de vários membros do PCB. À revelia de Julião, ele fez opção pela luta armada no campo, como instrumento da ação revolucionária – talvez por esse motivo tenha sido perseguido pela polícia ideológica e expulso do Partidão em 1962. Todavia, como se sabe e como apostou o bruxo Golbery do Couto e Silva, não houve resistência ao golpe de 64, o governo de João Goulart caiu, como cai um castelo de areia à beira da praia e o poder foi parar nas mãos dos generais-presidentes. Clodomir tem no seu currículo um mandato de deputado pernambucano pelo PCB, claro. Esteve preso com o famoso educador Paulo Freire (*) que lhe dirigiu carta dizendo, dentre outras coisas: “amigo-irmão, velho de guerra, que me ensinou, com paciência, como viver entre paredes, como falar, com coronéis, jamais dizendo um aliás, que me ensinou a humildade, não só a mim, também aos outros que lá estavam, na prisão”. Além de ter ficado preso durante dois anos, amargou também 15 anos de exílio. Durante o período em que esteve preso, escreveu alguns contos, entre eles “Causos de Sentinela”, “Pedro Bunda”, “O Ladrão da Calça de Casimira” e “Mestre Ambrósio”. No ano passado esteve em Brasília para ser agraciado com o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, na categoria à Pobreza.

O produtor do documentário “Caçambada Cutuba”, jornalista Zola Xavier, juntamente com sua companheira Myriam Queiroz, vem fazendo uma série de entrevistas com o professor Clodomir Morais com o objetivo de futuramente disponibilizar o material cenográfico para o Museu da Memória Política que será construído em breve na capital. No leito do hospital Prontocor, ao dar entrevista a Zola, um par de olhos brilhava, fitando com orgulho o entrevistado. Era Jacinta Castelo Branco, trinta anos mais nova que o lúcido combatente, esposa e fiel escudeira de Clodomir, que não esconde a admiração e o amor que tem pelo seu companheiro de longas jornadas. Mestra em comunicação social e doutora em ciências Agrárias/Comunicação Rural pela Universidade Autônoma de Chapingo, no México, ela é professora de Português na Faro e revisora de textos da Universidade Federal de Rondônia.

Tendo iniciado muito cedo sua militância, já em 1954 Clodomir fazia seu primeiro curso, denominado “Stalin”, um preparo de formação para militantes do Partido Comunista Brasileiro. Desde então se apaixonou pelo sonho de ver construída, no Brasil, uma sociedade livre, justa e solidária. Político no sentido radical, ele, apesar da idade avançada, 81 anos, dedica sua inteligência, sabedoria e conhecimentos às causas da pólis, tentando atingir seu elemento mais importante: o homem. Um humanista jurássico dessa magnitude é uma pérola perdida em meio ao vendaval de falácias, picaretagens e planos fanfarrônicos postos em práticas hoje nesta Rondônia escalada para ser boi de piranha do capitalismo nacional. Como diria Jacob Bazarian, se os poucos que sabem muito não ensinarem os muitos que sabem pouco, então todos nós poderemos ser vítimas da ignorância e da servidão.

Assistir um velho combatente do naipe de Clodomir Morais dar entrevista em leito de hospital, falando como quem sabe faz a hora e não espera acontecer, é ver a história falando por si só e reatando seu antigo compromisso com a vida. John Lennon que me desculpe, mas, vendo e ouvindo ao vivo e em cores o professor Clodomir Morais falar, concluo o óbvio: o sonho não acabou, porque um dos últimos Grandes Comunistas habita entre nós.

CABARÉ TAMBÉM É CULTURA

Posted 23/08/2009 by basinho
Categories: Crônica

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Bons tempos em que a velha arte não se dava a céu aberto

Antes de morrer, Esron Meneses disse que Aluízio Ferreira, o maior cacique político da história de Rondônia, era também o maior caçador de rabo de saia destas paragens. Contava Dionísio Xavier da Silveira, o Velho Dió, que certa vez um navio atracou em uma de nossas barrancas carregado de prostitutas e que o desembarque das meninas fora embargado pelo delegado de polícia, a pedido de uma alta autoridade eclesiástica católica, em nome da moral e dos bons costumes. O sexo, tanto quanto o poder, move e comove o mundo. Sexo e poder se movem conjuntamente desde que o mundo é mundo. Assim como existem operários que fazem funcionar as máquinas da produção de riqueza, para se fazer funcionar a máquina operacional da fábrica de prazeres, precisa-se de operárias do sexo. A mais famosa delas, Maria de Madala, ou Maria Madalena, a pecadora, teve a graça de receber, em momentos de apuros, a intervenção pessoal do próprio filho de Deus, o Cristo Nazareno, Rei dos Judeus. Ora, se até o filho do Altíssimo saiu em defesa das damas da noite, quem iria impedir que elas chegassem por estas paragens nos idos de antanho?

Assim, pois, tivemos por aqui, como muito bem relata o articulista Anísio Gorayeb, as nossas famosas casas de prostituição, administradas pela tríade Maria Eunice, Tartaruga e Anita. Cabaré também é cultura. Prostituição é fenômeno social. E dá uma fora de casa de vez em quando é típico do caráter do homem brasileiro, desde que Cabral chegou aqui e os lusitanos, de quem herdamos uma boa dose de lirismo, além da sífilis, se apaixonaram pelas ancas, coxas, peitos e bundas das nossas índias saradas. Com a chegada das negras vindas do Congo, Angola e Moçambique a salada sexual ganhou aditivos ainda mais apimentados, pois é dessa intensa mistura que vai sair o protótipo sexual da mulher brasileira: a mulata boa de samba, boa de cama e parideira – um luxo só, como diria Ary Barroso.

À medida que eclodia o processo civilizatório, baseado na miscigenação dos elementos branco, índio e negro, crescia também o gosto brasileiro pela boêmia e pelo sexo fora de casa. O cinismo moral contraria, claro, os preceitos de nossa tradição cristã, mas, convenhamos, ele é tão brasileiro quanto a feijoada ou o samba, e aquele tem um papel social tão importante quanto estes. Como bons filhos de ciclos migratórios, nós recebemos garotas de programas dos mais diversos rincões do território brasileiro. A Maria Eunice, por exemplo, se não me engano, importava suas moçoilas do Estado do Pará e Amazonas. Outras agenciadoras, como Tartaruga e Anita, traziam suas damas da noite de Cuiabá e Acre. Hoje elas vêm até do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Daí a enxurrada de loirinhas circulando no Baco, Casa das Sete Mulheres e Enigma. No contra-ponto da dimensão social, tínhamos os clubes socytes da época, nomeados por Anisinho: Bancréveas, Ypiranga e Danúbio Azul Bailante Clube. Tanto esses clubes quantos aquelas casas famosas eram, na verdade, facetas opostas, mas paradoxalmente complementares, da mesma moeda. O homem que freqüentava aqueles ambientes chiques era o mesmo que circulava, talvez até com mais intimidade, prazer e eloqüência, nos corredores das casas noturnas, de modo que a razão de existir da tradição, da família e da propriedade coincide e se justapõe na mesma proporção à razão de existir das casas de prostituição: ambas, cada uma a seu modo, desempenham funções orgânicas e sociais, para a mantença mais ou menos harmoniosa da sociedade dos homens. Se no clube social o homem dançava com a esposa, no cabaré ele dançava com a rapariga, para o deleite do seu espírito libertino e sedento de fantasias. Mas não era só isso. Ir ao bordel significava também conviver, desfrutar de um modo de vida, cultivar um círculo de amizades e se relacionar com mulheres que não serviam só para a satisfação sexual, mas desempenhavam também o papel de confidentes, conselheiras, amigas, confidentes e amantes, no mais profundo sentido do termo.

O texto de Anísio revela claramente a vivência dualista e liberal desses papéis pelos nossos seringalistas, políticos, profissionais liberais, funcionários públicos etc. Essa é a função do memorialismo, oferecer material contextual à crítica e à análise sociológica do fenômeno. É claro que na levada da leitura emerge uma boa dose de nostalgismo, até porque também tive meu batismo de guerra no quartel-general de Maria Eunice, na rua Dom Pedro II, aos 13 anos, quando, levados por amigos do velho Serpa do Amaral, pisei pela primeira vez naquela casa famosa e misteriosa para os infantes da época, sendo recepcionado pela própria Maria Eunice, que se mostrou agradável, respeitável, educada e simpática anfitriã. Foi à tarde, quando as mariposas ainda se preparavam para a longa jornada da noite. Pelo figurino da etiqueta social, como filho da classe média, a minha iniciação sexual deveria ser mesmo num bordel, à conta de não haver em casa uma empregada que pudesse desempenhar à altura tal mister. No entanto, apesar da lembrança pessoal, o foco principal é o contexto reconstruído pelo articulista. Dele emanam uma série de elementos que perfaziam a realidade circundante da Porto Velho provinciana do final dos anos 50. Esses elementos, embora invoquem certo espírito pitoresco na abordagem do tema, devem servir para que tenhamos uma compreensão da vida enquanto processo histórico. Não basta lembrar da belíssima Cabaço de Aço (Raimundinha) e da Paquinha, mitos sexuais de antigamente. O desafio é compreender a sociedade de ontem, entender a Porto Velho de hoje e vislumbrar a cidade humanizada que queremos edificar no futuro.

Ao cavoucar no baú de suas lembranças, o articulista Anísio Gorayeb não quer ser apenas pitoresco ou engraçado, nostálgico ou saudosista, ele deve querer principalmente remontar arqueologicamente as contextualidades que compunham o cenário urbano daquela Porto Velho em que as principais cafetinas eram conhecidas de toda a população pelo nome e sobrenome e até, como bem testemunha o caso da Tartaruga, recebiam tratamento dispensado às mulheres da alta sociedade – “Madame Elvira”, assim era tratada a popular Tartaruga no convívio social. Reviver a estória dos velhos cabarés é mergulhar nas entranhas dos nossos costumes e práticas sociais mais delicadas, visto que, se nosso maior herói, Macunaíma, nunca teve caráter, o sem-caratismo tupiniquim é a marca do pecado, suado, rasgado, praticado debaixo da linha do equador, nas madrugadas infindas em que as meninas da Maria Eunice, Tartaruga e Anita recebiam homens das diversas classes sociais para a prática do ritual da vida. Por mais que se torça o pudico nariz, é elementar: cabaré também é cultura!

Trova de Reis no Teatro Banzeiros

Posted 04/08/2009 by basinho
Categories: Arte, Música

Tags: , , , , , , ,

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Silvio Santos, Ernesto Melo e Mestre Bainha no Mercado Cultural

Foi uma trova de Reis, com pompa e circunstância. Sílvio Santos, Ernesto Melo e Bainha levaram ontem (30.07), ao palco do Teatro Municipal Banzeiros, no centro de Porto Velho, o espetáculo musical “Trinca de Reis”, patrocinado pelo projeto Quinta Cultural, do Banco da Amazônia/Basa, e operacionalizado pela Fundação Cultural Iaripuna.

Se verdadeiro o adágio popular que diz que “quem foi rei sempre é majestade”, então não há como negar: os sambistas são mesmo os três reis magos da cultura popular de Rondônia. Seus colegas e antepassados, Baltasar, Melquior e Gaspar levaram ouro, incenso e mirra ao Cristo Menino. Sílvio Santos, Ernesto Melo e Bainha, reis beradeiros, sem castelo e sem coroa, ofereceram, sem nenhuma modéstia emocional, seus corações à cidade de Porto Velho. No descortino do repertório que apresentaram, ficou claro que eles aprenderam com Noel Rosa que o samba, na realidade, não vem do morro nem lá da cidade, mas nasce dentro do coração, tendo nascido para os reis tupiniquins nas noites eternas, do Triângulo ao Kilômetro Um, do Caiari ao Santa Bárbara, quando todos eles, ainda muito jovens, andavam a tira colo com Jorge Andrade, Paulo Santos, Wálter Bártolo, Manga Rosa, Nego Velho e Sabará. São reis menestréis, de origem plebéia, vassalos da lua até altas madrugadas, servos da emoção e filhos da noite de uma provinciana Porto Velho que na década de 60 só ia até a rua Presidente Kennedy, hoje Avenida Governador Jorge Teixeira. Juntos, em uníssono diapasão, falam de um tempo em que eram felizes e não sabiam.

Sílvio Santos abriu a mostra musical do reinado homenageando a Banda do Vai Quem Quer, o maior bloco carnavalesco da Amazônia Ocidental. Beradeiro de São Carlos, mas apaixonado pela sua cidade de criação, ele viajou nas asas das calendas de antanho e pinçou poeticamente para a platéia um bico de pena de uma cidade do porto em que, na beira do rio Madeira, ao invés de canoas, já surgiam chatas, navios cargueiros de alto calado.

Acompanhado por nove excelentes músicos, ele passou pelo bairro Caiari (Catega Caiari – 1995), mostrando porque é considerado um dos nossos melhores compositores de samba. Em Trem Fluvial, sapateou xote e balanceou xaxado, deixando claro que nós recebemos do sangue nordestino uma boa dose de lirismo e gosto pela folia. Amo de boi que não dá colher de chá para o terreiro do contrário, investiu-se da patente de Amo do Corre Campo, conquistada ao longo dos seus 50 anos de carreira na tropa do batalhão cultural, e serviu uma belíssima toada à moda da casa. Com a batida rítmica de Parintins, é verdade, porém bem posta e temperadamente compassada. Nostálgico, lembrou de Babá, sambista já falecido, com que compôs várias canções, das viagens de trem para Jaci-Paraná, Abunã e Guajará-Mirim pelas lendárias composições da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, e em seguida abriu alas para a performance do mestre Bainha.

Bainha, que de batismo recebeu o nome de Waldemir Pinheiro da Silva, nasceu no Forte Príncipe da Beira e se criou onde ele mesmo diz, “eu sou da 7 de Setembro/lá do Kilômetro Um/terra de gente bamba/de muita mulher, futebol e samba”, também iniciou seu reinado musical rendendo tributo à Banda do Vai Quem Quer, ao Galo da Meia Noite, cordão carnavalesco para o qual fez várias marchas, ao seu bairro e ao saudoso Babá (Sebastião Araújo da Silva). Bainha, filho de Dona Marieta, é o mais velhos dos reis: 7.0 (e, em agosto deste ano, mais precisamente dia 11, completará 71 anos de idade e robusta majestade). No palco, com uma boa dose de negritude nas veias, o decano dos sambistas rondonienses não contou conversa fiada, chamou a cozinha à ordem e entoou alguns dos seus melhores sambas, parando apenas para chamar um outro rei ao palco: Ernesto Melo, o sambista do Mocambo.

Foi dele o momento de maior emoção da noite. Feito menino, chorou no palco, durante sua apresentação, emocionado com sua própria obra: Porto Velho Meu Dengo, samba vencedor do Festival Aberto de Música do Sesc. Comovido com as lágrimas do poeta da cidade, o público imediatamente o socorreu e passou a cantar aquele samba, como se o show fosse da platéia para o criador da peça musical vitoriosa e ufanista.

Os reis têm saudade. Mas o que parece senti-la com maior intensidade, a ponto de preferir quase sempre o tom menor, com sua inexorável atmosfera de nostalgia, é o compositor e intérprete Ernesto Melo. Sua moldura rítmica e melódica, antes de se colocar pura e simplesmente a serviço da alegria e da descontração, serve, sim, de guia turístico numa viagem ao túnel do tempo, onde habitam pessoas, fatos e lugares de uma época pretérita, que, no discurso poético do artista, são declaradamente nomeados para que o povo não esqueça seus personagens, sua memória e suas marcas existenciais cravadas no tempo histórico. Não se esqueça, por exemplo, que o Morro do Querosene veio abaixo e hoje não tem Baixa da União por ação do 5º BEC (Batalhão de Engenharia e Construção). “Se o tempo da boemia passou, quero que passe o tempo dos generais”, disse ele exorcizando o fantasma da Ditadura Militar que se instaurou no Brasil em março de 1964. Para Ernesto Melo, lembrar é preciso, viver não é preciso. Daí a longa lista de nomes de pessoas que emergem das suas criações, bem como os sítios nostálgicos (Bancrévea Clube, Ypiranga, Clube Imperial, Bar do Zizi, Bar do Casemiro, Praça Marechal Rondon e tantos outros) com os quais ele entrelaça a saudade que tem de um tempo que não volta mais, lamentos, suspiros, amores, costumes, lembranças, paixões, perda e ganhos, bares e boêmios, alegrias e tristezas, passado e presente, como se dentro do poeta morasse um bêbado e um equilibrista querendo andar na mesma corda bamba. São as antíteses barrocas da música popular karipuna!

No olho do furacão da sua página histórica mais caótica e decisiva, Rondônia precisa colocar esses reis não apenas no palco iluminado, mas principalmente na estrada da vida para que eles visitem e cantem em todos os recantos deste Estado e sirvam ao povo o melhor que têm dentro de si: um vendaval de paixão e amor pelas coisas de sua gente. Salve Bainha, Ernesto Melo e Sílvio Santos, os Reis Trovadores de Porto Velho!

Ah! Essas bailarinas!

Posted 27/07/2009 by basinho
Categories: Arte, Cultura

Tags: , , , , , , , , , , ,

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Sandra Lúcia e as bailarinas da Cia Cristina Pontes

No palco, são pássaros celestiais, anjos enfeitiçados, místicas invocando a lua cheia.

Seus corpos leves como plumas se movem com sensualidade e graça, para o deleite da platéia.

Seus olhos metem medo aos simples mortais que as assistem, pois exalam ardor e paixão, temor e benevolência, domínio e desafio, a um só tempo.

Seus espíritos iluminados flutam libertos, como almas do além pregando a paz e a beleza.

Ah! Essas bailarinas!

No palco, levam todos à hipnose coletiva, e em cada ser que as assistem bate um coração confidencialmente apaixonado por elas. São platônicos nossos aplausos!

Não são apenas mulheres, são filhas do encanto e da beleza,

Mensageiras das divindades que, por ato de amor, criaram a dança,

Dança que embala o movimento de fortes e boas emoções sacudindo dentro da gente.

Seu credo é de que, bailando, espalham no ar generosas porções de cura para todos os males do mundo.

Curam até espinhela caída, se esse for o mal que acomete o assistente.

Curam o estresse e a gripe da indiferença, a cefaléia do egoísmo e a dor de cotovelo

De um amor perdido.

Com gestos elegantes e delicados, falam da cultura de povos do além-mar, dos povos do deserto,

E seus corpos nos contam estórias para as quais somos crianças embasbacadas com todas as cores do arco-íris a nos tingir os olhos da fantasia.

Ah! Essas bailarinas!

Se elas dançam, eu danço, e dançamos todos nós no compasso da sedução, na asa delta da imaginação, no vôo mágico do tapete tecido por elas no palco da vida.

São belas por dádiva de Deus,

São fadas por encantamento,

São altivas pelo esplendor de sua dignidade,

São guerreiras das lutas gestuais,

São estrelas que nos apaixonam e seguem espalhando luz pelo espaço sideral,

São expressões infinitas do horizonte feminino,

E são, por fim, mulheres impregnadas de imensa de dose amor no recôncavo da alma,

Para que o homem não se sinta só e as ame secreta e profundamente por alguns minutos

Que parecem, e quem dera fosse, a Eternidade!

Berço Esplêndido dos Pizzaiolos

Posted 20/07/2009 by basinho
Categories: Crônica, Política

Tags: , , , , , , , , , , , ,

por Antônio Serpa do Amaral Filho

mais um banquete destinado à festa eleitoral

Pizza: a última flor do Lácio, inculta e bela, funcional e prestativa.

Aí do Brasil se a pizza não existisse! Ou estaríamos na Revolução Praieira até hoje, ou seríamos de fato um país sério. Tão brasileira quanto o samba, é a pizza que socorre a nação nos momentos mais difíceis da sua vida política e econômica. Sem ela não seríamos um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. A pizza é própria transubstanciação do jeitinho brasileiro de ser. Os carcamanos trouxeram a receita da toscana, mas a invenção da aplicabilidade prática nas coisas do Estado é tupiniquim – macunaíma que o diga. Tanto assim que o Brasil é uma pizza continental. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi infeliz na sua fala, foi no mínimo modesto. Pizzaiolos somos todos nós, abestados, acomodados, explorados e exploradores, operários e burgueses, piriguetes e patricinhas, e não apenas os Senadores da respeitável República Brasileira. A Câmara Federal, ao contrário do que disse Lula, aqui mesmo em Rondônia, não é composta por 300 picaretas, mas por 513 excelentes fazedores de pizza. Por que tanto pudor em lidar com uma palavra que expressa a habilidade de preparar o mais conhecido prato nacional: a pizza nossa de cada dia?! Como Dom João VI não pôde trazer chefes franceses consigo, porque o irado Napoleão Bonaparte pegou pesado no seu Calcanhar de Aquiles, trouxe ele pizzaiolos da melhor estirpe em meio a portuguesada que desembarcou no Rio de Janeiro, naquele 1808. A partir daí tudo acabou em pizza: o reinado dele, do Pedro II, a Independência, a proclamação da República, o Mensalão e a cassação de Zé Sarney, Rei do Maranhão. À moda da casa, a morte do senador Olavo Pires é servida até hoje no circuito cultural de Porto Velho, chamado ironicamente de “Calçada da Fama”.

Sugerimos ao Tribunal Superior Eleitoral que acrescente a palavra pizzaiolo à nomenclatura oficial dos cargos eletivos, e assim nós teremos eleição para pizzaiolos federais (senatoriais e camerais), pizzaiolos estaduais e municipais. Pronto, aí ninguém mais torcerá o nariz para o capo di tutti capi da latinidade cabocla, o magnífico Lula Pizzaiolo da Silva, o criador da super-pizza Sarney a quatro queijos. Nunca na estória deste país se viu um nordestino com a cara tão italianesca como a que tem o pau-de-arara que veio de mala e cuia do seu bodocó para, com o Partido dos Trabalhadores, administrar o Brasil. Lula não é apenas competente, demonstra ser bem humorado e super-sincero. Mas o companheiro Lula não é o único executivo pizzaiolo. Fernando Henrique Cardoso tem um pé na cozinha, outro no norte da Itália. Fernando Collor também sabe preparar uma boa mussarela à parmegiana. Até a União Nacional dos Estudantes está fazendo pizza, a pizza da falta de identidade e da adesão ao poder central. Enquanto a estudantina da década de sessenta comeu o pão que o diabo amassou, a estudantada da atualidade prepara hoje a massa da pizza que será servida amanhã. No passado, tivemos a marcha dos 100 mil sob a palavra de ordem de quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Hoje, os vemos tricotando com o poder executivo federal, com 100 mil reais na mão doados pela Petrobrás. É mais que pizza, é um fettuccine a la putanesca!

E o nosso pizzaiolo-mor, Ivo Cassol?! Deu corda para que madeireiros e grileiros da Floresta Bom Futuro invadissem o canteiro de obra da usina hidrelétrica de Jirau e em seguida correu pra lá com algumas mal traçadas linhas em mãos, invocando um cínico acordo com o Ministério do Meio Ambiente. Branco, sulista e alienígena, comenta-se que ele financia politicamente acordos escusos e ecologicamente incorretos, como se os bens naturais dos caboclos e índios da amazônia fossem penduricalhos da casa de mama mia. Come pizza regional e arrota bacalhau da Noruega!

Como bom fazedor de pizza governamental, Cassol posou de salvador da pátria e distribuiu fartas fatias da guloseima italiana para todos os atores da pantomima eleitoreira, com sabor de pirarucu com paçoca, ou pacu nos olhos dos outros é refresco. Só mesmo uma revolução karipuna para botar ordem na casa!

É certo que, no sábado, a feijoada é nosso prato predileto. Mas no domingo não tem pra ninguém: a tradicional família brasileira se farta mesmo é de pizza com borda de catchupiri. Lá na terra de Silvio Berlusconi, ser pizzaiolo é motivo de orgulho. Aqui é razão de polêmica e de bate-boca entre senadores da república. Alguém precisa urgentemente propor a instituição do “Dia Nacional do Pizzaiolo”. Dizem as más línguas que a articulação já começou: foi marcada uma reunião entre Sarney, Lula e o senador Arthur Virgílio para discutir a matéria. O encontro será realizado numa área vip do fabuloso castelo pertencente ao deputadoEdmar Moreira (DEM-MG), patrocinador da tertúlia.

É por essa e outras que, inexoravelmente, todos e todas a uma só conclusão haverão de chegar: o Brasil é mesmo o berço esplêndido dos pizzaiolos!

Por falar nisso, alguém aí pode nos dizer qual o sabor da pizza que será servida em 2010???

A Mais Catinguenta Flor do Maracujá

Posted 07/07/2009 by basinho
Categories: Crônica

Tags: , , , ,

o boi e o equilibrista

Como disse um amigo meu, ainda bem que televisão não tem cheiro, porque se tivesse o Brasil todo iria sentir a fragrância fétida que emanou do nosso arraial. Esse foi o São João mais imundo e fedorento de Porto Velho. Se o odor pudesse também ser transmitido aos telespectadores, a nação brasileira, por justo motivo e indecência das nossas autoridades executivas, torceria o nariz para o povo dessa nossa Rondônia terra de ninguém.

Investiram na ornamentação e se esqueceram da higienização. A moldura organizacional da brincadeira refletiu um pouco o tom fanfarrônico utilizado em discurso pelo chefe do executivo estadual, Ivo Cassol. A última versão do Arraial Flor do Maracujá foi sem dúvida a mais badalada e prestigiada pela imprensa televisiva local, com vários canais transmitindo ao vivo para todo território nacional e América Latina, mas foi também a mais fedorenta festa de São João de todos os tempos, a que mais relegou ao povo a desinteligência de chafurdar na pocilga, no meio da lama podre, como um bando de ronca e fuça. Não havia um só canto imune ao fluídos pútridos que infestavam os quadrantes do curral de Diamante Negro, cazumbá e catirina. Enquanto as imagens plásticas das nossas belas índias chegavam aos mais longínquos rincões dos prados brasileiros, a catinga se espalhava pelos quatro cantos do terreiro festivo como se fosse uma praga dos deuses. Era como se estivéssemos assistindo a uma bela ópera popular à margem de uma fossa negra.

Salta aos olhos a gritante contradição: temos duas modernas usinas hidrelétricas em construção, porém somos incapazes festejar nossos folguedos com um mínimo de dignidade olftativa e meio-ambiental. É mambembe nosso teatro administrativo. Lixo e podridão impuseram-se como binômio indissociável desse arrasta-pé. Tal era a intensidade do mau cheiro, que a folgança mais parecia um sarapatel azedo, mistura inédita de Baco, bacon, São João, Jeca Tatu e gambá. Enquanto o majestoso Gigante Sagrado mostrava ao público a grandeza de sua performance, o povo do arraial transitava em meio a fedentina, atolado nas poças enlameadas, alegre, risonho, livre e solto, como boiada desprovida de senso crítico quanto ao faro. Capricharam na divulgação e negligenciaram na decência. Valorizam a exportação de imagem e esconderam o lixo debaixo do tapete, como aquele assessor de Fernando Henrique Cardoso – o Ricúpero. Talvez por ser a derradeira armação do circo junino naquela área, uma vez que o presidente da Assembléia Legislativa, Neodi Carlos, já anunciou, inclusive na própria Flor do Maracujá, que vai o usar o terreno para construir a nova sede do parlamento estadual, é que os organizadores foram relapsos no item salubridade olftativa.

Está certo que somos terceiro-mundistas, mas não precisavam exagerar. O Flor do Maracujá deste ano espelhava claramente a índole da maioria dos nossos políticos: são excelentes na montagem da fachada teatral, mas são péssimos na feitura de texto que contenha um mínimo de essência. Pensam eles que são inteligentes e que todos do povo são tolos e insensíveis. Ninguém nega o êxito da superprodução da festança, mas tudo isso vem abaixo e vira peça de cenário pra inglês ver se feito à custa do tratamento de baixo nível dispensado ao destinatário maior da fuzaca: o povo rondoniense.

No mesmo diapasão crítico deve ser analisada a construção das hidrelétricas: se forem construídas apenas para dar suporte à produção de riqueza às economias do sul e do sudeste, experimentaremos o maior engodo de toda nossa história. Analogicamente, temos que o governo do estado priorizou a produção cênica e se esqueceu da dignidade ambiental enquanto que o governo federal investe na produção energética e se esquece da dignidade social, relegando a Porto Velho a condição de Flor do Maracujá em grandes proporções, isto é, com muito peru com farofa na construção civil, na frota de veículos e na especulação imobiliária e pouco caldo no angu nos investimentos sociais, educacionais, ambientais e culturais. Em suma: uma trapaça urdida à unanimidade dos detentores do poder – de esquerda, centro e direita.

Durante a pândega, eclodiam em meio às barracas de comidas típicas, armações recreativas e barracões de jogos e diversão as inúmeras vertentes aromáticas produzidas pelo feitio dos manjares da roça. Sendo Rondônia a maior rosa antropofágica do norte, e sendo ainda pousada de todas as tribos tupiniquins carentes de emprego, perspectiva de vida e de um lugar ao sol, a comidagem do nosso arraial constituiu-se numa aquarela brasileira, cujas matizes abrigam indiscriminadamente a comida dos negros, pardos, mestiços, índios, amarelos, brancos, cafuzos e mamelucos. Agora imagine a fusão aromática do cheiro do vatapá, acarajé, pato no tucupi e vômito. Ou tudo isso junto mais picanha na chapa, mugunzá, milho assado e lama podre. Ou, ainda, a miscelânea do cheiro de pipoca com manteiga, galinha picante, suco de laranja, tutu à mineira, maniçoba e carniça. É de embrulhar o estômago, mas é verdade. A fedentina não deu sossego à diversidade culinária que perfazia a atmosfera odorífera do tradicional folguedo.

Bela na foto e na fita, sem dúvida, mas ecologicamente incorreta, essa foi a mais catinguenta Flor do Maracujá que já se viu até hoje na cidade do porto.

Michael Jackson Não Morreu

Posted 26/06/2009 by basinho
Categories: Crônica, Música

Tags: , , , , , , ,

O rei do pop foi juntar-se a Elvis, Lenon, Hendrix e Joplin

Nova York está de luto. Porém, Michael Jackson não morreu. Elvis também não. Pelé é eterno, e o nome do Rei do Baião arde flamejante nas labaredas incandescente em homenagem a São João. Um ídolo não morre, eterniza-se na memória dos povos. O Rei do Pop moderno, aos 50 anos de idade, teve parada cardíaca, e isso lhe ceifou a vida biológica, mas não a vida mitológica. Mito que é mito não morre. A morte insinua ser apenas numa tentativa de desconstituição do ícone cultural. Porém vã. O ex-integrante do Jackson Five, com a ajuda de uma máquina publicitária capaz de transformar pau em pedra, pertence hoje à galeria dos ídolos pop imortalizados desde o século 20, como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Marley e Elvis Presley. Todos são figuras emblemáticas da moderna sociedade de consumo. Literalmente falando, nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não. Mais que a morte do homem, o mundo lamenta mesmo é sua orfandade mitológica. A coisificação engendrada na consciência do homem parido e criado nas megalópolis de cimento e aço tende a substituir o ser real do artista.

Quando ele ainda era gente, o meu irmão, Miguel Amaral, hoje médico e cronner da Banda Los Dinos, o imitava, cantando o sucesso Ben, com agudos e falsetes que a difícil interpretação requeria. O menino pobre e negro transfigurou-se num personagem branco e rico. O exímio dançarino fez-se mito para si mesmo, antes que a mídia o fizesse para os Estados Unidos e para o mundo. É tal a magnitude do fenômeno que as lágrimas vertidas de todas as latitudes da terra são em pêsames ao mito que consumiu e abduziu o Michael Jackson de carne e osso, transportando-o literalmente para a Terra do Nunca, sua Neverland.

Daí Porque, em prosa, diríamos: o mito é rito, fato, sonho, fantasia a mascarar o ego no desbunde do carnaval existencialista; na overdose sensitiva da subjetividade dança o mito, na ciranda da semiose tem seu berço semântico; na fragilidade do homem frente ao vendaval de significações, saboreia seu fast-food predileto, sua praia é a inquietude da consciência. O mito é sombra sorrateira forjada na alma para dar sentido ao suspiro cotidiano de cada ser vivente. O mito é parente próximo, distante, é primo, pai, mãe, avô, dança do arquétipo ancestral, emergente da caverna paleolítica para a contemporaneidade, da necrorealidade dos tempos de matrix. O mito, anador das angústias humanas; mito, coador da borra do meu café mental. Nossos sonhos estão nele, nossa libido está nele, nele estão nossas esperanças, nosso vazio nele encontra tapume e argamassa.

O mito é misto quente, devaneio tuti-frutti do eu boquiaberto frente ao mundo que o indaga e surpreende; com ele nos embriagamos no bar da esquina do tempo; a projeção da consciência para o mar aberto das versões concebe o mito; metade do mito sou eu, metade é ele, outra banda do mito somos nós, o meu e o teu não-eu soltos no ar como bolha de sabão encantando olhos incautos. O mito é pleura, é soda, é moda, foto três por quatro numa sala de espelhos a refletir as mil facetas da alegria, da angústia e carência humanas, planando em asas de fênix massificada.

Por isso, por ser um rito, um mito, fito e capto, e tenho dito: Michael Jackson não morreu.