Morre Laio, o anjo travesso
O Estado de Rondônia está de luto. A música popular karipuna perdeu uma de suas grandes vozes. Morreu ontem, em São Paulo, o cantor, compositor e folclorista Francisco Lázaro, o Laio. Deixem voar livres as asas azuis e vermelhas – disse ele em uma de suas letras, chamando atenção do homem para o direito que as araras têm de voar livremente no espaço aéreo da amazônia ocidental. Laio era um anjo, um Anjo da Madrugada.
Ao lado de Tatá, Monteiro, Waldemar Nazareno e Roberto Matias, fundou o mais famoso grupo de seresta da região norte, no tempo em que integravam o Movimento da Juventude Católica do bairro Nossa Senhora das Graças, em Porto Velho. O falecido artista, irmão do baixista Sérgio Santos, era um ribeirinho legítimo: nasceu em Calama, à margem do rio Madeira, cercado de igarapés e muitas estórias da floresta e brincadeiras de corre-corre macuchila e bela condessa. Intuitivo, já trouxe consigo o gosto pelo canto, pela música e pelo boi-bumbá, folguedo junino onde tinha a patente de Amo, comandando os vaqueiros do garboso e valente Diamante Negro, impondo respeito e admiração aos contrários.
Um de seus grandes amores foi a cantora Nêga, também já falecida, com quem chegou a ter uma filha e para quem Laio compôs Aceiro, dizendo ele desse amor com a doce intérprete: és, coração, como um aceiro, se da mata és o início, do roçado és o fim. Apaixonado pela música, participou, na década de 80, no espaço cultural do Sesc/RO, do Movimento Musical Grito de Cantadores e dos vários festivais de música da capital. Junto com o poeta Binho (Rubens Vaz Cavalcante) e Ernesto Melo e tantos outros, participou do CD que registrou algumas peças dos artistas que se apresentaram na Quinta Cultural do BASA. O CD Amazônia em Canto, uma coletânea gravada em 1996, em Belo Horizonte/MG com o apoio da prefeitura municipal de Porto Velho, por Bado, Binho, Nêga e Augusto Silveira, foi outra produção antológica que teve a participação de Laio.
Ele era, antes de mais nada, um autêntico cantador, um ribeirinho que remou de Calama até o Porto das Esperanças e aqui se fez legítimo menestrel à moda antiga. Com a viola em punho não tinha medo de cara feia nem dos desafios que a vida lhe impunha. Como uma patativa do baixo Madeira, entoou nas noites enluaradas o melhor do cancioneiro latino-americano, usando com os seus parceiros a alcunha de “Anjos da Madrugada” para tirar uma onda com a cara dos paulistas, que inventaram os “Demônios da Garoa”. O corpo a morte leva/a voz some na brisa/a dor sobe pras trevas/o nome a alma imortaliza – disse João Nogueira. O cantar do cantador, no entanto, não morre, fica latejando no espírito da gente como uma fonte jorrando perenemente saudade e emoção, lembranças e o testemunho de que a voz de Laio permanece viva no coração do povo. Ele cantou por amor e por amor será eternamente lembrado por quem ouviu seu canto livre como as penas azuis e vermelhas planando no firmamento da terra Guaporé. Polifacético, interpretou Geraldo Vandré, cantou toada de boi e MPB. Laio participou da pajelança das várias tribos culturais, mas não se enquadrou definitivamente em nenhuma delas. Era um anjo travesso cantando bolero e brincando de boi-bumbá!
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24/06/2011 às 13:37
Laio
Vivemos muitas viagens
atravessamos muitas estradas
comemos banana sprit em Ji-Paraná
mergulhamos em muitos igarapés
curtimos muitos por do sol no mirante
na beira-mar em Fortaleza
você foi meu primeiro professor de violão
meu parceiro preferido
você era mestre nos acordes
nos versos
você foi meu diretor de teatro
grupo Terra
muito Tomita
muito Pink Floyd
éramos da mesma vila de Calama
você nativo
eu implantado
moramos em Porto Velho
pena que o destino nos afastou
sempre tive saudades de você
porque eras uma poesia viva
amavas a vida
amavas a Deus
o violão parecia tua parte
eras nos acordes um artesão
na harmonia uma poesia
na criação um artista irreparável
saiba meu amigo
que morreu um parte de mim
e em mim permaneceras vivo
saiba que o sabia
o uirapuru e o peito-roxo
estão de luto
saiba meu irmão
que tua canção está no meu coração
sei que a morte faz parte da existência
faz parte do percurso da vida
e que eu não gosto de chorar
mas estou chorando
com saudades de você
fazia tempo que não te encontrava
agora estou lembrando os últimos
momentos em que estivemos juntos
porque serão momentos inesquecíveis
o Grupo Terra ficou órfão
Calama e Porto Velho estão chorando.
Luiz Alfredo – poeta